Grupo criado para estudar insucesso a Matemática entrega relatório com três meses de atraso

Sociedade Portuguesa de Matemática diz que o grupo “falhou compromissos”. Documento deve ser colocado em consulta pública nesta sexta-feira.

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"Foi sempre claro que o prazo não se devia sobrepor às condições pedidas pelo grupo para concluir o trabalho sem sacrificar a sua qualidade", diz Ministério da Educação. PAULO PIMENTA

O mandato do grupo de trabalho criado no final do ano passado para estudar o insucesso a Matemática terminou a 30 de Junho. E só no final desse mês é que entregou o relatório que devia ter sido submetido no início de Abril. Desde esta sexta-feira, o documento já se encontra em consulta pública.

Segundo o despacho de criação do grupo, a ordem de trabalhos devia ter sido esta: elaborar um relatório síntese sobre a situação do ensino, aprendizagem e avaliação na disciplina e submetê-lo a discussão pública (até Março de 2019); elaborar uma análise desses contributos; e apresentar um conjunto de recomendações finais (até 30 de Junho de 2019).

“Nós atrasámo-nos, não somos perfeitos, mas foi [aplicada] uma metodologia inovadora. Apresentámos um relatório com cerca de 300 páginas. Não é uma coisa trivial”, justifica ao PÚBLICO o coordenador do grupo de trabalho, o professor da Universidade de Coimbra Jaime Carvalho e Silva. Além disso, acrescenta: “Tentámos que não fosse opinativo”. Resultado: o grupo só conseguiu completar a primeira fase dos trabalhos.

E agora quem coordena a consulta pública? “Na medida em que o mandato do grupo de trabalho terminou, legalmente falando, tem que sair outro despacho a definir isso”, esclarece Carvalho e Silva. “Se o senhor secretário de Estado nos pedir [estamos disponíveis] para conduzir a discussão pública.”

Quanto à demora, o ME esclarece que “o grupo de trabalho solicitou mais tempo, porque envolveu professores em acumulação com as aulas e porque a complexidade do trabalho assim o exigiu”. E sublinha: “Para o ministério foi sempre claro que o prazo não se devia sobrepor às condições pedidas pelo grupo para concluir o trabalho sem sacrificar a sua qualidade.”

Carvalho e Silva espera que, quando existir um documento final, tenha “força política e que qualquer Governo ou ministro da Educação, se sinta com segurança para o implementar porque passou por um crivo muito grande e com um acervo documental enorme”.

“Falhou compromissos”

Num comunicado enviado às redacções, a Sociedade Portuguesa de Matemática (SPM) diz que o grupo de trabalho “falhou compromissos”. Carvalho e Silva declara: “[Da parte da SPM], não me contactaram a pedir qualquer esclarecimento.”

“A SPM lamenta profundamente esta forma ligeira de lidar com um problema tão sério e estratégico para o futuro dos jovens portugueses.” Além disso, refere que o episódio “vem agudizar uma situação já em si instável e problemática” provocada pelo projecto da autonomia e flexibilidade curricular.

Além destas denúncias, a SPM critica ainda que esteja a prevista a apresentação dos principais resultados do relatório no programa do encontro nacional dos professores de Matemática (Profmat) — organizado pela Associação de Professores de Matemática —, a 13 de Julho. Questionado pelo PÚBLICO, o coordenador do grupo de trabalho diz que a sessão foi cancelada. “Eu comuniquei à organização do Profmat que não poderia fazer a apresentação pública. Tinha terminado o mandato e o secretário de Estado é que iria definir o timing da discussão”, explica.

Em comunicado, a SPM lembra ainda que, em Janeiro deste ano, “rejeitou o cenário catastrofista sobre o ensino da Matemática no nosso país” detalhado no texto do despacho de criação do grupo de trabalho, bem como a sua composição “pouco representativa da comunidade pedagógica e científica portuguesa”. Na altura, sobre esta questão, Jaime Carvalho e Silva, defendeu, em declarações ao PÚBLICO, que “esta é uma comissão técnica especializada e não um mini-parlamento”.