Crowdfunding para enfermeiros: financiadores recusam entregar a causas sociais dinheiro que sobrou

Mais de 200 mil euros vão ser usados para continuar a luta dos enfermeiros, defendem os inquiridos numa consulta organizada pelos organizadores do crowdfunding. Opção é criticada por um sindicato.

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Nuno Ferreira Santos

Um inquérito feito a quem doou dinheiro para financiar as duas greves dos enfermeiros às cirurgias programadas revelou que a maior parte dos doadores está contra entregar o valor monetário que sobrou para causas sociais ou instituições de solidariedade.

Segundo avança a TSF esta sexta-feira, no inquérito, que teve uma taxa de resposta de 19%, quase dois terços daquele que responderam (um total de 4862 votos) votaram contra doar os mais de 200 mil euros que sobram para causas sociais optando por continuar a usar o dinheiro recolhido para a “luta dos enfermeiros”.

Os enfermeiros dos blocos operatórios de sete hospitais públicos fizeram, no início de Fevereiro, uma greve às cirurgias programadas que durou até ao final do mesmo mês. Tratou-se da segunda “greve cirúrgica”, como foi denominada pelos profissionais, depois de uma primeira paralisação idêntica em cinco grandes hospitais, que durou de 22 de Novembro a 31 de Dezembro, ter levado ao cancelamento ou adiamento de quase oito mil cirurgias.

As duas greves foram convocadas por duas estruturas sindicais, embora inicialmente o protesto tenha partido de um movimento de enfermeiros, o movimento “greve cirúrgica”, que lançou publicamente recolhas de fundos para compensar os colegas grevistas que ficam sem ordenado por aderir à paralisação. Ao todo, para as duas greves, recolheram mais de 740 mil euros. O fundo serviu para financiar os enfermeiros dos blocos que adiram às duas paralisações. Por cada dia de greve descontados do vencimento, foram dados 42 euros aos profissionais.

À TSF, Nelson Cordeiro, um dos organizadores do crowdfunding, explica que existiu a necessidade de realizar este inquérito porque alguns colegas começaram a sugerir que o dinheiro que restou devia ser doado a instituições de solidariedade, ou a causas como a da bebé Matilde, diagnosticada com atrofia muscular espinhal, possibilidade que chegou a estar em cima da mesa.

Decisão divide enfermeiros

De acordo com os fundadores do Grupo Greve Cirúrgica, o dinheiro que sobrou será usado para continuar a “luta dos enfermeiros”, o que pode passar por um processo em tribunal contra o Ministério da Saúde para que as reivindicações dos enfermeiros sejam cumpridas, trabalho jurídico que, garante o grupo à TSF, será feito por um gabinete de advogados especializado. Apenas no final do eventual processo é que o dinheiro que restar será doado. 

A decisão não é unânime entre os enfermeiros. Lúcia Leite, presidente de um dois sindicatos que convocou os protestos de Dezembro e Fevereiro, não concorda com a decisão dos profissionais uma vez que a taxa de resposta ao inquérito foi muito baixa (apenas 19%) e que ficarão “defraudadas as expectativas iniciais de muitos dos que contribuíram” e que pensavam que o destino final do dinheiro seria uma instituição de solidariedade. 

Os sindicatos que integram a Federação Nacional dos Sindicatos dos Enfermeiros (FENSE) já admitiram voltar a fazer greve em Julho, após uma reunião com representantes dos ministérios da Saúde e das Finanças e dos hospitais EPE ter resultado em “impasse” negocial.

Título corrigido às 16h10