Visita de Trump será de Estado, 19 anos depois de Clinton

Terminal de contentores de Sines e base das Lajes são temas importantes na agenda. Com o Parlamento fechado, não há risco de boicote à esquerda.

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O Presidente Trump à chegada ao aeroporto Mitchell, 1 12 de Julho Reuters/CARLOS BARRIA

As diplomacias de Portugal e dos Estados Unidos trabalham na visita de Donald Trump a Portugal que, segundo a TVI, deverá decorrer em finais de Agosto. A viagem do Presidente norte-americano, ainda sem confirmação oficial, será, contudo, uma visita de Estado, apurou o PÚBLICO. Será a primeira desde o ano 2000.

Há 19 anos, o Presidente Bill Clinton esteve em Lisboa, a propósito da Cimeira União Europeia-EUA, durante a presidência portuguesa da UE, e prolongou a sua estada com uma visita de Estado. George W. Bush e Barack Obama vieram a Portugal depois disso, mas estas deslocações não tiveram a marca de visita de Estado.

Há 19 anos, o Presidente Bill Clinton esteve em Lisboa, a propósito da cimeira União Europeia - Estados Unidos, durante a presidência portuguesa, e prolongou a sua estadia com uma visita de Estado. O Presidente da República era Jorge Sampaio e o primeiro-ministro, António Guterres. Na memória diplomática há uma recordação curiosa que não chegou a ser embaraço.

Antes de ser recebido na Presidência da República foi perguntado a Clinton se considerava a necessidade de estar ao seu dispor uma cadeira em que se sentisse cómodo, dado a sua estatura: 1,95 metros de altura. O Presidente dos Estados Unidos foi optimista e desaconselhou tal recurso. Afinal, na cadeira de Belém, Bill Clinton ficou manifesta e visivelmente desenquadrado.

Mais remotamente, em Maio de 1985, Ronald Reagan esteve numa visita de Estado que o levou a discursar na Assembleia da República. Reagan surpreendeu um hemiciclo não cheio, os deputados comunistas abandonaram o Parlamento antes do discurso e os da União da Esquerda Democrática Socialista, de Lopes Cardoso, não compareceram.

Já na fase final do seu discurso, abordou a dimensão religiosa do homem. “A nossa reivindicação de liberdade humana e a nossa sugestão de que os direitos inalienáveis vêm de alguém maior do que nós, estão ancoradas no transcendente”, disse, para depois evocar João Paulo II, seu amigo e aliado na luta contra o comunismo.

“Veio cá, a Fátima, o local do vosso grande santuário, movido pela sua especial devoção a Maria, para pedir pelo perdão e pela compaixão entre os homens, para rezar pela paz e o reconhecimento da dignidade humana através do mundo”, disse.

A revelação mais surpreendente ainda estava para vir: “Quando me encontrei com o Papa João Paulo II, no ano passado, no Alasca, agradeci-lhe pela sua vida e pelo seu apostolado. Atrevi-me a sugerir que o exemplo de homens como ele e nas orações de pessoas simples em todo o mundo, pessoas simples como os pastorinhos de Fátima, reside mais poder do que em todos os grandes exércitos e estadistas do mundo.”

Rivalizar com chineses

Dado o calendário político, numa visita que se admite ser de 24 horas, Trump não discursará na Assembleia da República, por esta estar encerrada por um duplo motivo: férias e por a legislatura ter concluído. Uma situação fortuita, mas conveniente, pois evita um mais que provável boicote. As imagens das bancadas da esquerda vazias correriam mundo.

O que não seria adequado para o actual inquilino da Casa Branca a pouco mais de um ano das eleições de Novembro de 2020, e certamente pouco recomendável para o ambiente das negociações diplomáticas. Acresce, por fim, que Agosto é mês por excelência de férias, pelo que a visita não deverá despertar as tradicionais manifestações de desagrado que sempre acompanham a presença de Donald Trump na maioria dos países europeus. Logo se verá se a visita vai ser um convidado de pedra na campanha eleitoral portuguesa, que arranca escassas duas semanas depois.

Esta visita representa que Trump aceitou o repto lançado por Marcelo Rebelo de Sousa em Washington, em Junho do ano passado. Um dos pontos da agenda serão os investimentos norte-americanos, nomeadamente o eventual interesse no concurso internacional para a ampliação do terminal de contentores de Sines.

Actualmente, o terminal de contentores de Sines, por onde entra um terço do gás liquefeito exportado pelos EUA para a Europa, é gerido por Singapura. O concurso para a construção do novo Terminal, apelidado de Vasco da Gama, será lançado em breve pelo Governo, tendo a ministra do Mar, Ana Paula Vitorino, já anunciado que será feita uma concessão por 50 anos.

Em Junho, o Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, desafiou os EUA a concorrerem a uma presença no Porto de Sines, defendendo que seria importante estrategicamente como porta de entrada para a Europa. “Os que estão ausentes estão sempre errados”, disse, na sua célebre intervenção em inglês de 1 de Junho, após as eleições europeias, na Fundação Luso-Americana para o Desenvolvimento (FLAD), em Lisboa. 

“Vai haver uma decisão sobre Sines. É óbvio, há décadas, que é um ponto vital para entrar na Europa”, disse o Presidente, acrescentando: “Vocês têm de estar lá quando chegar o momento”. Marcelo salientou que “os chineses têm sempre um ministro a visitar Sines, quase todos os meses, e não é o único caso, outros países asiáticos também”. Segundo o chefe de Estado, o embaixador norte-americano em Lisboa “está a trabalhar nisso” e “sabe que o tempo está a esgotar-se”. 

O embaixador norte-americano é George E. Glass, um ex-banqueiro de investimento que passou também pelo ramo imobiliário e que é há vários anos financiador de campanhas dos republicanos.

A TVI noticiou esta quinta-feira “ser muito provável” a visita de um dia antes de chegar a Espanha a convite do rei Felipe VI. O Ministério dos Negócios Estrangeiros comentou à TVI “não ter nada a dizer a propósito de uma eventual visita” de Trump. O PÚBLICO tentou obter um comentário da embaixada norte-americana em Portugal, sem sucesso até ao momento.

Mas o PÚBLICO confirmou que já houve esforços diplomáticos para que esta visita ocorresse primeiro em Junho e depois em Julho. O mês, afinal, é Agosto, e o silêncio em Lisboa e Washington tem um motivo: a Casa Branca com Donald Trump na sala oval não anuncia deslocações com muita antecedência.