Há quase cinco mil pessoas com VIH que não estão a ser tratadas

O capítulo do Relatório de Primavera 2019 dedicado ao VIH/sida lembra que a epidemia em Portugal ainda é um “desafio complexo”.

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guilherme marques

Os dados oficiais relativos a 2017 dão conta de que ainda existem cerca de 4700 pessoas com VIH que não estão em tratamento. “Com as linhas de orientação adoptadas no nosso país para início imediato de tratamento (Testar e Tratar), este número dever-se-á maioritariamente ao abandono do sistema ou do processo de tratamento em si”, dizem os autores do capítulo do Relatório de Primavera 2019 dedicado ao VIH/sida.

Para compreender o fenómeno, “seria desejável a produção de conhecimento mais aprofundado sobre as características destas pessoas” e que permita perceber as motivações para o abandono do seguimento hospitalar e da terapêutica. Tendo em conta o que se sabe sobre a epidemia “será provável que neste número estejam sobrerrepresentados alguns dos grupos mais atingidos pela infecção”. Nomeadamente, as pessoas “mais desfavorecidas e menos informadas”, lê-se no documento.

Além disso, estima-se que 3250 doentes com VIH que não saibam que estão infectados. O número de potenciais transmissores, que inclui as pessoas diagnosticadas mas não em tratamento (4709) e as pessoas em tratamento mas com carga vírica não suprimida (2993), é ainda maior: serão 10.952. Segundo os autores do capítulo, “estes números mostram não só um volume de potenciais transmissores significativamente mais elevado do que na maioria da restante região europeia como dão nota de uma perda considerável de pessoas do momento do diagnóstico até ao início do tratamento e de pessoas em tratamento, mas sem carga vírica suprimida”.

O relatório faz um balanço das medidas de combate à infecção e aos números que se alcançaram desde que, na década de 1980, surgiram os primeiros casos. A conclusão é esta: “A epidemia nacional continua a representar um desafio complexo.”

Os problemas ocorrem a vários níveis. Por um lado, os novos casos repartem-se por várias subpopulações, “evidenciando a necessidade de estratégias de diagnóstico a elas especificamente adequados”. Além disso, “o atraso nas notificações permanece preocupante”. Também sinal dessa demora é o número de casos referentes ao ano de 2016 que só foram reportados em 2017: mais 283.

Estes números revelam uma “trajectória descendente lenta” da infecção em Portugal. Podemos “estar perante uma nova forma da epidemia nacional em que há intersecções entre populações-chave”. Isso vai exigir que “sejam repensadas e delineadas estratégias adequadas”.

PrEP e preservativos

Os autores do capítulo deixam ainda várias notas sobre as estratégias de prevenção. E as medidas tomadas também ficam aquém: “A cobertura de prevenção no território nacional, quer no que concerne às populações-chave, quer a que é dirigida à população em geral, é reduzida.”

No caso dos preservativos, os autores alertam que “a distribuição junto dos grupos prioritários pode ser insuficiente para ter impacto na transmissão”. É preciso obter informação sobre a distribuição regional de cada grupo para “ajustar esforços”. Além disso, “não deveria ser limitada aos grupos prioritários”, mas alargada “ao território nacional, junto da população sexualmente activa” e nas escolas.

Quanto à profilaxia pré-exposição (PrEP), os autores dizem que a aplicação tem sido “lenta”. E há “lacunas sérias no território nacional em termos do acesso dirigido às populações em maior risco”.

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