Alterações de trânsito e abate de árvores revoltam Quinta do Barão

Moradores desta zona residencial de Carcavelos escreveram uma carta aberta à autarquia em protesto contra as alterações ao trânsito previstas no âmbito do plano de reconversão urbanística da fábrica da Legrand e Quinta da Alagoa. Câmara diz que este projecto dará “uma nova vida à Quinta do Barão”.

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Rui Gaudêncio

Um grupo de moradores da Quinta do Barão, em Carcavelos, está a protestar contra as alterações de trânsito previstas no âmbito do projecto de requalificação dos terrenos da antiga fábrica de componentes eléctricos da Legrand, onde serão construídas residências universitárias, escritórios, espaços para restauração, superfícies comerciais comerciais e um hotel de quatro estrelas. 

Em causa estão as alterações à circulação na Rua Jacinto Isidoro de Sousa e na Estrada da Alagoa, que se situam nas imediações de uma rotunda de acesso à A5 e à Avenida Marginal, que liga Cascais a Lisboa. Com a obra ali em curso, parte da Estrada da Alagoa será transformada numa zona pedonal, empurrando o trânsito para a Rua Jacinto Isidoro de Sousa que serve de acesso local a um bairro densamente povoado e tem, actualmente, apenas um sentido. De acordo com o projecto, a via deverá ter dois sentidos para escoar o trânsito do complexo empresarial e comercial que está em construção. 

“Não achamos justo nem honesto para com os moradores da Quinta do Barão, muitos dos quais residem aqui há três décadas, que se transforme a Estrada da Alagoa numa zona pedonal desviando o trânsito desta estrada principal para o bairro residencial e se derrubem os muros com a finalidade de beneficiar o interesse particular de construtores e promotores imobiliários”, escrevem os moradores numa carta que dirigiram à câmara de Cascais, na semana passada. Já em Fevereiro, este grupo de munícipes tinha feito chegar à Assembleia Municipal de Cascais uma petição com mais de 400 assinaturas. 

No entanto, os protestos intensificaram-se agora porque nas últimas semanas têm sido abatidas algumas árvores, assim como vedados alguns lugares de estacionamento na Rua Jacinto Isidoro de Sousa. O que levou os residentes a colarem cartazes nas árvores e nos muros do complexo industrial e a “acamparem” junto da obra para tentarem obter respostas às suas reivindicações. 

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“No terreno da Legrand havia um pequeno pinhal de umas dezenas de pinheiros mansos, que são árvores protegidas no regulamento municipal, que foram abatidas quase na sua totalidade. Por regra, é algo que se deve evitar. Já abateram ciprestes na nossa rua, que servem de barreira ao ruído”, diz Joana Urban Vitorino, uma das moradoras do bairro. “Consideramos que foi um sinal de enorme desrespeito terem colocado as traseiras da zona comercial e retalho do empreendimento para a nossa rua e querem abrir uma segunda via para poderem sair os pesados de mercadorias por lá. Vai ter um impacto enorme na nossa qualidade de vida, a nível ambiental, com um enorme acréscimo de ruído, de poluição, e até da probabilidade de acidentes”, acrescenta a moradora.

Questionada pelo PÚBLICO, a câmara de Cascais afirma que esta zona de Carcavelos tem já variados problemas e acredita que “este projecto dará uma nova vida à Quinta do Barão, com três novas ruas, três novas rotundas, mais estacionamento, mais zonas verdes e uma nova artéria pedonal num dos lugares mais movimentados da freguesia”, que é a Estrada da Alagoa. E que, inclusive, o projecto “vai também promover a requalificação da Quinta da Alagoa, um dos grandes parques urbanos do concelho”. 

Quanto ao abate de árvores, que, segundo explicaram os munícipes, foi feito para que pudesse ser deitada abaixo parte do muro do complexo fabril para ali abrir uma entrada, a câmara diz ter conhecimento “de abates em propriedade privada” e que, “tanto quanto é o compromisso do promotor, serão largamente compensados por novas plantações”. De acordo com a autarquia, estão referenciadas 315 árvores (no início da obra) e “a larga maioria será mantida”, sendo que, depois de concluídos os trabalhos, esse número deverá crescer para 330. 

2500 postos de trabalho 

O projecto foi apresentado em Setembro de 2017, tendo sido noticiado que empresas como a Sonae, a Bricodis, a McDonalds, ou a Nestlé se iriam instalar naquele parque empresarial, onde seriam criados 2500 postos de trabalho. Na apresentação do projecto, orçado em 50 milhões de euros, o presidente da câmara de Cascais, Carlos Carreiras, garantiu que toda a intervenção seria feita mantendo ou reduzindo a área construída actualmente. “É bom que fique claro: não vai haver mais construção. Até podemos chegar ao fim e ter uma redução da área construída”, disse na altura. 

Dado o número de postos de trabalho que serão criados, os moradores temem que a zona fique mais pressionada pelo trânsito do que já está. No estudo de tráfego do projecto, datado de Agosto de 2017, lê-se, nas suas conclusões, que “o tráfego gerado pelo empreendimento não será susceptível de gerar impactos significativos nas condições de circulação e que as soluções viárias propostas para a envolvente ao empreendimento são adequadas e se encontram correctamente dimensionadas”.

Ao PÚBLICO, a câmara sublinha que “esta é uma intervenção que tira uma fábrica pesada de um núcleo residencial” e que “vai gerar milhares de postos de trabalho qualificados”. “Dizer que aumentará o caos é futurologia. Caos é o que há hoje e o que queremos resolver com os cidadãos”. 

Os munícipes criticam ainda a perda de lugares de estacionamento com o alargamento da Rua Jacinto Isidoro de Sousa. Sobre este assunto, a autarquia garante que os lugares que desaparecerão desta rua “vão ser largamente compensados com os lugares de estacionamento da nova Legrand, aos quais os moradores terão, naturalmente, acesso”.

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Os moradores acusam ainda a câmara de Cascais não atentar “às legítimas preocupações dos seus munícipes” e de não facultar a documentação pedida. No entanto, a câmara diz que já reuniu com os peticionários e “foram dadas respostas aos mesmos em sede de Assembleia Municipal” e sublinhou que o projecto de requalificação da Legrand foi debatido e escrutinado em período eleitoral. Ainda assim, as explicações não têm convencido os moradores que ponderam agora “accionar a via judicial fazendo valer os prejuízos decorrentes da actuação da Câmara Municipal de Cascais”.