Dias de festa com eclipse na competição nacional do Curtas Vila do Conde

Dia de Festa, de Sofia Bost, e Sol Negro, de Maureen Fazendeiro, são, para já, os melhores filmes de uma colheita morna, de que Destiny Deluxe, de Diogo Baldaia, parece ser o título mais fracturante.

Sofia Bost
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Dia de Festa, de Sofia Bost DR

Não é segredo para ninguém que, durante muito tempo, o Curtas Vila do Conde foi o único barómetro do estado da produção portuguesa na curta-metragem. Desde que outros festivais, como o IndieLisboa ou o Doclisboa, decidiram apostar no formato, o Curtas já não é “o único”, mas, entre o que é mostrado no Panorama Nacional (cinco títulos este ano) e o que é aceite a concurso (16 filmes, dos quais 13 em estreia mundial), continua a ser um ponto de encontro central para a produção interna de curta-metragem.

Visto um pouco mais de metade da competição nacional, a colheita 2019 corre, para já, morna. O melhor dos dez títulos já exibidos, ironicamente, é um dos três filmes a concurso que não teve estreia mundial no Curtas: Dia de Festa, de Sofia Bost, estreado na Semana da Crítica de Cannes. Instantâneo atento e inteligente que desafia a lógica do “realismo social”, ao desenhar frontalmente e com uma precisão invejável, em meia-dúzia de planos, toda uma vida de relações disfuncionais entre mães e filhas, exibe uma Rita Martins notável no papel principal e impõe Sofia Bost como uma cineasta a seguir. Também francamente recomendável é o envolvente exercício quase-experimental de Maureen Fazendeiro, Sol Negro, em que um eclipse solar é o mote para um olhar de antropologia entre o onírico e o retro-futurista, embalado pela voz de Delphine Seyrig lendo Henri Michaux.

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Sol Negro, de Maureen Fazendeiro DR

O patamar do “interessante sem ser inteiramente conseguido” é, para já, o que reúne mais títulos. Ruby, de Mariana Gaivão, lança um olhar intrigante sobre uma comunidade de estrangeiros no interior de Portugal, com genuína curiosidade pelas suas personagens, mas tomba por vezes num distanciamento demasiado resguardado. Não Procures Mais Além, de André Marques, instala uma curiosa narrativa fantástica entre o Haiti e Palmela, que funciona enquanto retrato do desespero romântico mas se banaliza quando assume abertamente a sua dimensão vampirizante. Esse lado fantástico aparece também no loop temporal de Amor Quântico, de Paulo Furtado, que, apesar da presença de Lucie Lucas e do trabalho de câmara de Jorge Quintela, não ultrapassa a dimensão de esquisso à espera de ser melhor trabalhado. Muito semelhantes no seu olhar sobre o amor entre os millennialsLisboa, 2018, de Francisco Valente, e Cenas de uma Vida Amorosa, de Miguel Afonso, procuram outras maneiras de o filmar e de o contar, mais formalista no caso de Afonso e mais dialogada no caso de Valente, mas sem conseguirem encontrar ainda algo de distinto e próprio na forma final. Match nulo, porque Afonso ganha vantagem formal e Valente ganha vantagem nos diálogos.

PÚBLICO - <I>Ruby</i>, de Mariana Gaivão
Ruby, de Mariana Gaivão DR
PÚBLICO - <i>Não Procures Mais Além</i>, de André Marques
Não Procures Mais Além, de André Marques dr
PÚBLICO - <I>Amor Quântico</i>, de Paulo Furtado
Amor Quântico, de Paulo Furtado DR
PÚBLICO - <I>Lisboa, 2018</i>, de Francisco Valente
Lisboa, 2018, de Francisco Valente DR
PÚBLICO - <I>Cenas de Uma Vida Amorosa</i>, de Miguel Afonso
Cenas de Uma Vida Amorosa, de Miguel Afonso DR
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Sobram os títulos francamente menos conseguidos. A Fábrica prossegue o interesse do veterano Pedro Neves pela preservação da memória perdida (aqui uma entretanto encerrada fiação), mas a sobreposição de uma camada onírica-ficcionada aos registos documentais das vozes e dos corpos dos trabalhadores, bela ideia no papel, não resulta na prática. O Verde do Jardim, regresso de Diogo Costa Amarante após o Urso de Ouro de Cidade Pequena, tem um bom ponto de partida e uma segurança formal inegável, mas as elipses temporais e narrativas a que recorre sugerem uma conceptualização demasiado calculada para uma história que não a sustenta.

E falta o filme mais fracturante do festival: Destiny Deluxe, de Diogo Baldaia, abstracto só muito vagamente narrativo, colisão entre locais, personagens e percursos da Lisboa de hoje que parece dividir o público de maneira quase geracional. Perguntamo-nos se não seria, também, essa a vontade do realizador (um filme da sua geração para a sua geração), mas a verdade é que Destiny Deluxe nos pareceu mais um gesto de afirmação do que um objecto coeso, que dirá muito a alguns e a outros tantos (como nós) quase nada. A idade não perdoa – o que é válido, diga-se, para qualquer idade.