Bonecas: quando o poder e a submissão das mulheres se (con)fundem

Com direcção artística de Ana Luena e José Miguel Soares, o espectáculo Bonecas sobe ao palco a partir desta quinta-feira, no Teatro Carlos Alberto, no Porto, e fica em cena até 21 de Julho.

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Foi a partir de um conto inédito de Afonso Cruz e do universo da pintora Paula Rego que nasceu o espectáculo de teatro Bonecas. “O Afonso falou-nos da história da Sãozinha, que nos anos 50 foi largada pelo pai num lazareto uma instituição onde formavam as raparigas para serem criadas em casas de famílias abastadas”, conta Ana Luena, directora artística, que conjugou essa história com os “universos femininos” com que Paula Rego trabalha para dar vida a esta peça. “Neste tipo de instituições há dinâmicas que se criam entre as raparigas, que não são irmãs de sangue”; dessas dinâmicas emergem por vezes relações antagónicas, acrescenta a encenadora do espectáculo que se estreia esta noite no Teatro Carlos Alberto, no Porto, onde fica em cena até dia 21.

Na base da dramaturgia está ainda um trabalho de investigação feito com um grupo de raparigas à guarda de um centro de acolhimento temporário e com mulheres vítimas de violência doméstica, acolhidas numa casa-abrigo. “Este trabalho foi mais artístico, mas tivemos a possibilidade de perceber as tensões [que se vivem] neste momento”, aponta a directora artística, sublinhando que o contexto actual é já bem diferente daquele que se vive no texto de Afonso Cruz​.

É por territórios femininos e cruéis que avançamos em Bonecas, assistindo a uma inversão de papéis, acompanhando o modo como as vítimas se tornam prisioneiras da sua própria condição de vítima e as oscilações das intérpretes: ora submissas, ora dominadoras. No fundo, “elas funcionam como irmãs”, balançando “entre o ódio e o amor incondicional e, ao mesmo tempo, a submissão, o poder e a violência”, clarifica a encenadora. As personagens da peça são educadas para serem “criadas em famílias abastadas” — tal como na história de Afonso Cruz — e para servirem os homens da casa. E só uma delas será “a escolhida”. O mais importante, para Ana Luena, é a “ideia de quase escravatura”, visível ao longo do espectáculo. Essa “história maior” faz a ligação com a actualidade da violência doméstica e de género “num sentido mais universal”. Bonecas funciona como uma chamada de atenção: “Isto acontece, Isto continua [a acontecer]”, diz a directora artística.

O texto da peça, apesar de partir do texto de Afonso Cruz, acaba mais por “abraçá-lo”. E está bem presente. É, até, um “adereço de cena”. Num dos momentos finais do espectáculo, surge um livro, que uma das intérpretes lê — e dele fazem parte excertos do texto do escritor. A ideia do livro funciona também “como acesso ao conhecimento, como acesso ao outro”, diz Ana Luena.

Bonecas prioriza a expressão física, que acaba até por ter um papel tão grande ou maior do que o texto. “Sempre trabalhei muito com o actor e com a improvisação”, explica a encenadora. Não só para “alimentar o actor na construção de algo”, mas para “construir cenas”: as intérpretes fazem improvisações e, “como não têm texto”, a resposta é “muito mais física, muito da relação delas com o espaço”, que, no caso da peça, é uma cortina. “Este universo também remete muito para uma questão do corpo”, acrescenta.

Para além do lado mais expressivo, Bonecas também não é uma peça fechada — não se sabe onde começa a ficção e onde começa a realidade. “Hoje há muito esta questão de querer arranjar um alvo, o culpado, a vítima, o agressor”, lamenta a encenadora. A tentativa aqui é dar uma visão “multifacetada”, tentando “fugir a maniqueísmos” e a interpretações lineares, explica José Miguel Soares, que partilha a direcção artística de Bonecas com Ana Luena, e para quem é importante “olhar para o monstro que há nos outros e para o monstro que há em nós mesmos”.

“Nós não temos um projecto Bonecas a crescer com uma raiz, tronco e copa. Interessam-nos mais os pontos de fuga, como um caule que cresce para o lado, que se transforma numa folha”, conclui José Miguel Soares. Texto editado por Inês Nadais