Embaixador britânico nos EUA demite-se

Kim Darroch recebeu o apoio do Governo britânico, mas concluiu que deixou de ter condições para fazer o seu trabalho.

Kim Darroch (à dir.) com Boris Johnson
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Kim Darroch (à dir.) com Boris Johnson LUSA/MICHAEL REYNOLDS

O embaixador do Reino Unido em Washington, Kim Darroch, apresentou a demissão nesta quarta-feira, na sequência da divulgação pública de emails confidenciais, datados de 2017, em que descreveu a Administração Trump como disfuncional, incoerente e caótica.

A publicação desses emails​, pelo jornal britânico Daily Mail, provocou um incidente diplomático entre os dois países, com o Presidente norte-americano a chamar “maluco” e “estúpido” ao embaixador e a dizer que a primeira-ministra britânica, Theresa May, conduziu o processo de “Brexit” de forma “insensata”.

Na manhã desta quarta-feira, três dias depois da notícia do Daily Mail, Kim Darroch enviou a carta de demissão ao n.º 2 do Ministério dos Negócios Estrangeiros britânico, Simon McDonald, que substitui no cargo, de forma interina, o ministro Jeremy Hunt, actualmente a disputar a liderança do Partido Conservador, e o cargo de chefe do Governo, com Boris Johnson.

“Desde a publicação dos documentos oficiais desta embaixada, tem havido uma grande especulação à volta da minha posição e da duração do resto do meu mandato como embaixador”, disse Darroch. “Quero pôr termo a essa especulação. A actual situação impede-me de desempenhar o cargo como eu gostaria.”

Em resposta, o vice-ministro dos Negócios Estrangeiros, Simon McDonald, disse que aceitou o pedido do embaixador “com um profundo lamento pessoal”, e elogiou Kim Darroch pela forma como se comportou nos últimos dias: “Como sempre o fez ao longo da sua longa carreira, com dignidade, profissionalismo e classe.”

“A primeira-ministra, o ministro dos Negócios Estrangeiros e todo o Governo mantiveram-se ao seu lado: o senhor foi alvo de uma divulgação maldosa; estava simplesmente a fazer o seu trabalho. Compreendo o seu desejo de aliviar a pressão sobre a sua família e sobre os seus colegas na embaixada; admiro o facto de pensar mais nos outros do que em si”, disse McDonald na carta citada pelo jornal Guardian.

Apoio de May

Desde que os emails​ confidenciais da embaixada britânica em Washington foram revelados, Kim Darroch contou sempre com o apoio da sua primeira-ministra e do seu ministro dos Negócios Estrangeiros, Jeremy Hunt. Principalmente quando o Presidente norte-americano, Donald Trump, o ofendeu publicamente, na terça-feira.

“Não estamos contentes com o maluco do embaixador que o Reino Unido impingiu aos Estados Unidos, é um tipo muito estúpido”, disse Trump no Twitter, onde aproveitou para lançar uma farpa a Theresa May: “Ele devia falar com o seu país, e com a primeira-ministra May, sobre o falhanço das negociações do ‘Brexit’, e não andar preocupado com as minhas críticas sobre a dimensão desse falhanço. Eu expliquei a May como se fecha um negócio, mas ela decidiu continuar naquela sua forma insensata e não foi capaz de o fazer. Foi um desastre!”

O Presidente dos EUA terminou a série de três tweets sobre o assunto chamando “idiota presunçoso” ao embaixador do Reino Unido em Washington.

Em resposta, Theresa May manifestou o seu “apoio total” a Kim Darroch e salientou que os embaixadores devem ser capazes de transmitir “avaliações honestas e sem rodeios sobre a política que é feita nos seus países”.

Na mesma mensagem, a primeira-ministra britânica frisou que a relação “especial e estável” entre o Reino Unido e os EUA não vai ser afectada por este episódio.

Os dois candidatos à sucessão de May, Jeremy Hunt e Boris Johnson, tiveram reacções diferentes sobre o incidente com a Casa Branca. Hunt também salientou os laços entre os dois países, mas disse ao Presidente Trump que deve tratar o Reino Unido “com respeito”; Johnson, mais próximo da Administração Trump, limitou-se a elogiar a relação entre os dois países e não disse se manteria o embaixador no cargo se for nomeado primeiro-ministro.

Nos emails confidenciais divulgados pelo Daily Mail, Kim Darroch diz que Trump “irradia insegurança”. E diz também que a sua equipa não acredita que a Administração Trump venha a ser “mais normal, menos disfuncional e menos desajeitada e inepta diplomaticamente”.