Marroquino acusado de terrorismo condenado a 12 anos de prisão

Ficou provado que o arguido recrutava em Portugal operacionais para o grupo radical Daesh oferecendo 1500 euros mensais. Advogado diz que condenação foi uma surpresa, diz que há contradições e vai recorrer.

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Abdesselam Tazi terá recrutado Hicham El Hanafi que agora está preso em França DR

Abdesselam Tazi, um cidadão marroquino de 65 anos, foi condenado esta terça-feira a 12 anos de prisão. Neste cumulo jurídico está incluída a condenação por por um crime de recrutamento para o terrorismo (com pena de três anos e meio de prisão), financiamento do terrorismo (oito anos e meio), falsificação de documentos (um ano) e falsificação de cartão de crédito (cinco anos).

A leitura da sentença ocorreu esta terça-feira no Campus da Justiça, em Lisboa.

No decurso do julgamento, disse o juiz, não ficou provado que o arguido pertencia a uma organização terrorista internacional na Síria. No entanto, provou-se que o arguido recrutava, em Portugal, operacionais para o autodenominado Estado Islâmico (Daesh) oferecendo 1500 euros mensais.

Provou-se, também, que o arguido usou um passaporte falso: para sair de Marrocos e entrar em Portugal, mas não para fins terroristas.

Abdesselam Tazi, que está em prisão preventiva desde 23 de Março de 2017 na cadeia de alta segurança de Monsanto, em Lisboa, respondia por oito crimes: adesão a organização terrorista internacional, falsificação com vista ao terrorismo, recrutamento para o terrorismo, financiamento do terrorismo e quatro crimes de documento falso com vista ao financiamento do terrorismo.

Todas as despesas feitas pelo marroquino, referiu o magistrado durante a leitura da sentença, provam o percurso feito por Tazi em Portugal e na Europa. Também ficaram provadas as suas visitas ao centro de refugiados de Aveiro, local que as autoridades sempre suspeitaram que servia para tentar recrutar jovens para a organização terrorista na Síria.

O juiz também se referiu ao uso de cartões de crédito para pagar as despesas e os recrutamentos, lembrando que não estava em causa o uso de dinheiro para cometer actos terroristas. Esse financiamento tinha antes como objectivo “proceder à actividade de recrutamento” e não praticar actos terroristas.

“Espero que o seu Deus lhe perdoe”

No final da leitura da sentença o juiz disse: “Espero que o seu Deus lhe perdoe”.

“O senhor é um homem religioso. Eu também sou”, referiu o magistrado, que depois acrescentou: “O senhor veio do seu país para convencer uns miúdos indefesos a aderir à sua causa”.

Depois referiu-se ao facto de o arguido financiar a sua vida com recurso aos cartões de crédito de outras pessoas: “A sua actividade não era normal. Vivia da utilização de cartões de crédito”, disse, sublinhando que não se percebia como é que um homem que era tão religioso e conservador andava a viver com dinheiro dos outros.

“Não percebo como é que uma pessoa com as suas convicções se permite viver desta forma. Por um lado, é rígido com o comportamento das mulheres e depois em coisas bem mais graves não se importa a andar a defraudar as pessoas, a utilizar cartões de crédito para depois andar a recrutar jovens para irem para a Síria”.

Ao ouvir as palavras do juiz, Tazi dizia: “Não. Não”. E respondeu às criticas do juiz afirmando que não recrutou ninguém e que as denuncias contra a sua pessoa foram uma vingança por não aceitar traficar droga.

Lopes Guerreiro, advogado de Tazi, disse à saída do tribunal que a pena aplicada ao marroquino foi uma surpresa. “Estou muito surpreendido pela negativa, tendo em conta a prova produzida durante o julgamento”, afirmou, acrescentando que vai ler com atenção os argumentos do tribunal e não tem dúvidas de que irá recorrer da decisão e pedir a absolvição.

Até porque considerou que havia uma contradição. Ou seja, se não foi dada como provada a ligação a uma organização terrorista e foi absolvido, então como foi condenado por recrutar para uma organização terrorista?

Recorde-se que para o Ministério Público, um dos marroquinos recrutados por Tazi foi Hicham El Hanafi, que se encontra detido em França por planear um atentado terrorista, e com quem chegou viver no distrito de Aveiro.