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Megafone

Por um sindicalismo mais verde

Sabemos que a sindicalização promove o aumento dos salários e a segurança laboral. Mas poderá promover uma melhoria das práticas ambientais?

Imagina que nos objectivos duma próxima greve de enfermeiros encontrávamos questões como a transição energética dos hospitais? Ou um plano efectivo de reciclagem do papel e cartão produzido? Que na próxima greve dos estivadores um dos objectivos fosse a criação de um plano racional de utilização de águas? Parece utópico? Tentarei neste breve artigo não só demonstrar o contrário, como apresentar como uma consequência natural da evolução do movimento laboral.

A justiça ambiental não pode ser considerada como algo separado da justiça social. Apesar de a relação entre os dois campos ser tradicionalmente tensa, na realidade, a percepção que o objectivo último é o mesmo não é de agora. Já em 1895, movimentos laborais fundam a International Friends of Nature, uma organização que se dedica a causas ecológicas, sociais e políticas. No princípio da década de 1930, foi possível assistir no Reino Unido, a outra evidência desta aliança, quando um grupo de activistas ambientais e laborais defendeu o direito ao usufruto e manutenção do espaço verde público.

Sabemos que a sindicalização promove o aumento dos salários e a segurança laboral. Mas poderá promover uma melhoria das práticas ambientais? Não existem muitos estudos sobre o tema. Mas a existente parece apontar nesse sentido, pois cria incentivo na adopção de tecnologia verdes e na redução de emissões de gases produtores de efeito de estufa, sem impacto nos salários ou horário de trabalho.

Não deixa de ser surpreendente que a vasta literatura científica sobre as alterações climáticas não se dedicar aos seus impactos no local trabalho. Mais importante, como as organizações laborais podem contribuir para uma transição justa, que engloba as práticas com vista a uma transição equitativa para uma economia de baixas emissões e tecnologia verde, procurando diminuir o impacto no emprego, salários e comunidades. Para a consecução deste objectivo, é imprescindíveis um local de trabalho mais democrático e o envolvimento das comunidades.

No âmbito deste paradigma, o envolvimento democrático da comunidade é de crucial importância. É impossível ter como objectivo político algo tão impactante, senão for sustentado pela maioria da população. Para se obter este apoio, é preciso de forma directa e indirecta, através de actores de mediação tradicionais, garantir que nenhum sector da sociedade sai a perder com a transição.

As consequências das alterações climáticas são sobejamente conhecidas, desde o seu efeito na saúde à economia. Estas consequências são sentidas de forma mais severa por cidadãos de estratos sociais mais baixos, podendo mesmo ser afirmado existir, tal como no estado de saúde, um gradiente social inversamente proporcional. Assim, a luta por uma transição justa é também uma luta por mais equidade e justiça social. No entanto, permanece insuficiente a vontade política em combater as causas das alterações climáticas. Perante a inactividade dos governos, é necessário um reforço da acção de base local e um despertar da consciência cidadã. Não existe um planeta alternativo, pelo que este deve ser um objectivo comum a todos os cidadãos.

Voltando aos exemplos que iniciaram esta breve reflexão, é de todo pertinente que em reuniões entre patrões e sindicatos, os representantes dos trabalhadores coloquem em cima da mesa questões como transição energética ou gestão de resíduos. Será uma forma de acelerar o processo de transição justa e colocar o tema na agenda mediática, forçando o poder central a tomar acções decisivas e eficazes.