Opinião

O neorreacionarismo e como o combater

A triste realidade é que a elite portuguesa — na academia, na imprensa e na política — não quis até agora fazer o esforço de dar espaço às minorias.

Se há coisa que todos os historiadores devem saber é que inevitavelmente nos tornaremos artefactos históricos. Chega sempre um momento em que aquilo que escrevemos passa a valer mais como documento do passado do que como análise do presente. Só convém ter cuidado para não cair no século errado.

Foi nisso que pensei quando li a crónica de Maria de Fátima Bonifácio no PÚBLICO de sexta-feira. Naquela crónica, na qual (cito, a custo) se diz que “os ciganos são inassimiláveis” e “os africanos são abertamente racistas”, a mutilação genital feminina é falsamente apresentada como um “imperativo” entre muçulmanos, nessa crónica na qual “nem uns [africanos] nem outros [ciganos] descendem dos Direitos Universais do Homem”, porque afinal os direitos não são universais, mas já “a xenofobia e o racismo” é que “são um fenómeno universal” e assim “não são um problema especificamente português”, apenas encontrei uma caricatura do reacionarismo de um Joseph de Maistre no século XIX ou de um Léon Daudet na primeira metade do XX, misturados com medos e mitos que pareceriam saídos diretamente do século XVII.

Mas não é por estes argumentos serem desconexos, contraditórios e caricaturais que eles devem ser levados menos a sério. Pelo menos por duas razões.

A primeira é que tais argumentos facilmente encontram publicação desde que venham de alguém que consigo transporte o necessário capital social. E isso é já parte do problema que o próprio artigo de Fátima Bonifácio pretende negar: o da exclusão das vozes de minorias no espaço público. Qualquer artigo das pessoas com as redes sociais e de contactos “certas” é publicado sem grande questionamento, mas dar imprensa ou televisão às pessoas oriundas de minorias continua a ser uma prova de obstáculos e dificuldades insuperáveis. Escrevi-o aqui há uns meses, e repito: onde estão as crónicas e as colunas e os lugares nas televisões para Joacine Katar Moreira, ou Inocência Mata, ou Djaimilia Pereira de Almeida, ou Regina Queiroz, ou Solange Salvaterra, ou Beatriz Gomes Dias, ou Cristina Roldão (para citar só mulheres)? Mulheres também elas doutoradas ou até catedráticas, com percursos na investigação e no ativismo e na literatura, de áreas políticas ou partidos diferentes, ou de partido nenhum. Não é certamente por falta de mérito. Pelo contrário, para elas, o crivo tem sido incomparavelmente mais apertado. A triste realidade é que a elite portuguesa — na academia, na imprensa e na política — não quis até agora fazer o esforço de dar espaço às minorias. E esse fechamento agora torna-se ferozmente defensivo: para se manter, ele tem de ser cada vez mais fechado aos argumentos das minorias. Se continuarmos a rejeitar dar alguma voz e vez a quem nos pode falar da sua experiência como alvos do racismo e do preconceito, talvez a elite portuguesa consiga manter por mais uns tempos aqueles privilégios que considera serem resultado de um mérito que, infelizmente, pouco se vê.

A segunda razão por que um texto como o de Fátima Bonifácio deve ser escrutinado com atenção é porque ele revela uma evolução. Ainda aqui há uns anos havia correntes da direita que eram mais ou menos inconciliáveis. Conservadores e reacionários eram diferentes, e diferentes entre si dos liberais de direita. Elitistas e populistas de direita eram visceralmente opostos. Tradicionalistas e fascistas eram considerados infrequentáveis pelos outros, e por vezes entre si também. Agora, há indícios de que todas estas correntes se amalgamaram numa espécie de neorreacionarismo que seduz desde criaturas que vicejam nas catacumbas dos comentários da Internet até colunistas de títulos sérios. Foi assim que os conservadores britânicos se tornaram o oposto daquilo que diziam ser: em vez de conservadores, são agora revolucionários antiempíricos dispostos a fazerem de um charlatão o seu líder em nome de destruir o projeto europeu a que Churchill dedicou os seus últimos anos de vida. Foi assim que os ultraliberais brasileiros decidiram não votar em nenhum candidato liberal para porem Bolsonaro no Palácio do Planalto. Foi assim que Trump chegou à Casa Branca, que os conservadores austríacos se aliaram a um partido fundado por ex-SS e que Orbán passou a dominar o PPE. O neorreacionarismo é uma doença que transforma em zombies de séculos passados aqueles a quem infeta na direita.

Por sua vez, o combate ao neorreacionarismo só se pode fazer reforçando os valores que ele pretende rejeitar: o universalismo dos direitos humanos e o humanismo do antirracismo. Esses valores estão na base do progressismo, seja ele em clave republicana mais clássica ou na mais contemporânea interseccionalidade. Não é por acaso que mulheres, minorias e migrantes têm estado sob ataque da direita neorreacionária, que se sente ameaçada por todas essas categorias de gente a quem não quer ouvir e com quem não quer dividir espaço. É precisamente por isso que a defesa de mulheres, minorias e migrantes tem de estar na primeira linha de qualquer progressismo. Apesar de todos os problemas do presente, o que nos une é não querermos voltar a viver no passado.