Opinião

O que pode acontecer num almoço de família?

A família enfrenta os novos desafios de trazer para o seu seio a vontade e o empenho de preparar para novas formas de humanidade e de cidadania.

Foto

Maria, cinco anos, o membro mais novo de uma família que reúne de forma regular quatro gerações à volta de uma mesa, há muito vinha expressando a insatisfação de não poder pintar a gosto a pele dos personagens dos seus desenhos. Num desses encontros, a menina é presenteada com uma caixa de 12 lápis que recobriam todas as cores da pele, do branco ao preto. Maria regozija!

A mãe da menina diz-lhe: “Agora podes pintar pessoas de todas as cores!” A menina, surpresa, pergunta: “Pessoas de todas as cores?” A mãe responde: “Sim, na tua sala há o Luís que é chinês e a Luana que é negra, não é?” A indignação estampa-se no rosto da criança, que remata com toda a determinação: “Os meninos não têm cor!” E vai buscar um caderno disposta a fazer uso dos seus novos lápis.

Desenha dois meninos claramente identificados em termos de diferença de sexos. A tonalidade geral do desenho e a sua ambiguidade leva a que alguns dos presentes interpretem a cena como sendo uma festa e outros como uma tempestade. Maria nada diz, mas sorri.

Todos se envolvem numa conversa que acaba a versar um tema que nunca antes havia sido abordado: o racismo. Nesta família fala-se de mais ou menos todos os temas, do pessoal, à actualidade, passando pelo futebol (são todos do mesmo clube). Mas as posições e concepções de cada um sobre este tema, ou não tema, foram absolutamente surpreendentes pelas marcadas diferenças e pelo que tinham de desconhecido.

Revelam-se ideias claras e firmes, nada consensuais, e em rota de colisão com a “mentalidade” de grupo, pontuadas por dois extremos: de um lado, “não sou racista, mas não tolero pretos e então ciganos nem vê-los”; e do outro uma posição condescendente e paternalista do género “coitados, sofrem tanto com a exclusão, a estigmatização, a periferização e depois, no caso dos negros, o passado de escravos e colonizados”…

O espanto e embaraço foi geral, sendo então falado nos seguintes termos: como é que na família não se sabia que assim era, como é que existiam ideias tão divergentes? Onde e como haviam sido construídas tais concepções? Todos se envolveram na procura de uma explicação e compreensão do fenómeno, cientes de que tais concepções estavam bem ancoradas e tinham sido aprendidas. Foram identificadas algumas fontes, que iam dos manuais escolares, das três gerações mais velhas, aos ditados e expressões que estão na linguagem do dia-a-dia (a título de exemplo: “pintava a minha cara de preto” ou “com um olho no burro e outro no cigano”). Podemos negar e continuar a silenciar que existe, impregnada na sociedade portuguesa, uma ideologia e uma transmissão do racismo, que se dirige (e atinge) fundamentalmente aos negros mas também aos ciganos?

Será útil contextualizar esta família, com origens cruzadas que vão do Minho ao Algarve, do litoral ao interior, nas suas condições socioeducativas e nas relações com os fenómenos migratórios. Desde a 2.ª geração que todos nasceram e vivem em Lisboa, Os mais velhos, na casa dos 80 anos, pouco ou nada escolarizados, reportam casos de familiares que partiram para o Brasil ou os EUA, nos anos 1920. Na geração seguinte, na casa dos 60 anos, todos escolarizados e em alguns casos com o nível superior de estudos, reportam casos que partiram para a Europa. A 3.ª geração, por volta dos 30 anos, toda realizou estudos superiores e não reporta nenhuma migração. Não há na família ninguém que tenha estado em África e apenas um fez serviço militar obrigatório em Angola (assunto do qual nunca falou, nem tão-pouco alguém na família). Só a partir da geração que está agora na casa dos 30 é referida a existência de negros, mas não a de ciganos, nas turmas que frequentaram nos diversos ciclos de estudos em escolas públicas, com a particularidade de se tornarem cada vez mais raros, até quase desaparecerem no ensino superior. Nos bairros e prédios em que moram não há ciganos e raros são os negros. Não conhecem negros nem ciganos nos serviços públicos. Seria fastidioso inventariar o óbvio: negros e ciganos não só estão longe das nossas vidas, mas também o estão das nossas vistas. Omitir que existem é mesmo muito fácil, até há o ditado “longe da vista, longe do coração”!

Maria lançou o mote: “Cor da pele? Meninos são apenas meninos, meninos e meninas, sendo o cor-de-rosa a cor das meninas, e depois há outras cores que podem ser partilhadas por todos!” O racismo é uma construção social, formada e formatada. Com cinco anos, Maria ainda não sabe do que se trata, mas vai ficar a saber, a seu tempo.

Nesta família, e na sociedade portuguesa, silenciar o racismo tem o seu retorno feito de preconceito, desvalor e segregação. Na família são transmitidos os valores mais determinantes da socialização. Entre eles, está a inscrição no mundo e o valor e peso que têm os outros, os extra familiares, os que têm outra cor de pele, mas também os que chegam vindos de outras paragens, tal como nós já fomos para a Europa, a África e as Américas. A família enfrenta os novos desafios de trazer para o seu seio a vontade e o empenho de preparar para novas formas de humanidade e de cidadania.