Crónica

“Diga à minha filha que não vou jantar”

Perante o espectro da morte inesperada, reagimos de formas imprevisíveis. Quando ela se chega perto demais, o susto é infinito, podendo deixar no corpo marcas da sua passagem.

Ouviu-se um estrondo. Tinha acabado de me sentar, junto à porta do café, ainda quase vazio àquela hora da manhã, quando foram perfeitamente audíveis a travagem brusca e um impacto. Fui um dos primeiros a chegar ao pé da senhora estendida no chão, coberta de sangue. Estava consciente. Em voz trémula disse que era médica e pediu para ninguém lhe tocar enquanto não chegasse auxílio. Assim fizemos. Já alguém avisara as emergências. E ali ficámos à sua volta, enquanto o condutor punha as mãos na cabeça, maldizendo a vida, dizendo que não a vira e que o corpo tinha sido impulsionado até ao pára-brisas.

Foi em Londres, a semana passada. Um atropelamento. Era surpreendente a aparente calma da senhora, deitada no asfalto, cercada por cada vez mais gente. Perguntei-lhe se desejava que ligássemos para alguém. Que não. Mas logo depois fez um pequeno gesto na minha direcção. Percebi que queria dizer algo. “Diga, por favor, à minha filha para não esperar por mim porque não vou jantar.” Pedi que repetisse, intrigado. E reiterou o mesmo, acrescentando, em voz estabilizada, para retirar o número, o que fiz, telefonando de seguida, quando chegava a ambulância. Depois tentei regressar ao café, gelado. E dei por mim a pensar.

Há 20 e tal anos, tive um aparatoso acidente de automóvel. Depois do embate, aquela sensação de desajuste, tentando perceber a gravidade da situação e se pernas e braços estavam em condições. Por momentos, existe um foco. É como se as habilidades, aptidões e o poder de concentração pudessem até funcionar melhor do que numa situação normal. E de seguida existe uma espécie de suspensão do tempo. Fiquei cerca de 15 minutos imobilizado dentro do veículo, por entre chapa, sangue, dores e fracturas, e lembro-me perfeitamente de só ter tido preocupações similares às da senhora que acabara de ver.

No dia seguinte tinha um trabalho para entregar na faculdade — que iria ainda ultimar nesse dia — e até fui invadido por uma espécie de alívio perante a perspectiva de retardar a sua entrega. Era também actor numa peça de teatro e dei por mim a pensar em pessoas que me poderiam eventualmente substituir. Enfim, esse tipo de coisas, que nos conectam com a trivialidade da vida. Mais tarde falei com outras pessoas que passaram por situações idênticas e que me relataram experiências muito semelhantes.

Há uma cena de um filme que é muito representativa desse estádio liminar onde, de repente, nada parece encaixar. Há um acidente, os ocupantes do carro morrem, restando uma única sobrevivente que, ladeada por cadáveres, procura qualquer coisa que perdera, acabando por se perceber que é a carteira, como se o seu gesto fosse uma negação do que acabara de acontecer. Como se quisesse agarrar-se a uma normalidade impossível.

Perante o espectro da morte inesperada, reagimos de formas imprevisíveis. Quando ela se chega perto demais, o susto é infinito, podendo deixar no corpo marcas da sua passagem. Mas também se podem aprender algumas coisas, como se os olhos vissem como nunca antes tinha acontecido, sentindo que o tempo é apenas um fio e nele vão sendo enfiadas muitas experiências que a memória seleccionou para a eternidade.

Mais tarde, à hora de jantar, recebi um telefonema da filha. Agradecia-me o contacto. A mãe iria ficar no hospital algum tempo, com escoriações e várias fracturas num dos braços e perna, “mas poderia ter sido pior”, concluía, ao que eu tentei ripostar com uma banalidade acerca de estarmos sempre à mercê do mais imprevisível dos acidentes, tendo ela relativizado: “Sabe, agora pode ser Inverno, mas a Primavera haverá de voltar.”