“falem baixo, por favor”, João Gilberto morreu

O “maior artista de todos” deixou-nos no sábado e as influências são confessadas por muitos. Como diz Nelson Motta, Gilberto conseguiu retirar “o máximo do mínimo”.

João Gilberto fotografo no Carnegie Hall, em Nova Iorque, em 2004
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João Gilberto fotografo no Carnegie Hall, em Nova Iorque, em 2004 Hiroyuki Ito/Getty Images

São poucos os seres humanos que deixaram o mundo diferente do que o encontraram, João Gilberto, que no sábado morreu aos 88 anos, foi um deles. A música do Brasil, a música do mundo, do jazz até à mais anódina banda sonora de elevador, a sua marca estende-se à escala planetária, num infinito e mais além que, curiosamente, parte do mais absoluto minimalismo: uma batida nas cordas, essa forma diferente de dedilhar que entra no ouvido e nos toca em todas as vértebras.

“O máximo do mínimo”, como escreve o produtor e escritor Nelson Motta, grande amigo do músico baiano, num texto de opinião em O Globo. Ou, como afirma, em declaração à rádio Jovem Pan, o jornalista e escritor Ruy Castro, autor de Chega de Saudade, livro sobre o nascimento da bossa nova: “Ele queria aperfeiçoar a perfeição”.

Se é habitual dar a João Gilberto o cognome de “pai da bossa nova”, Motta estende a paternidade a “toda a música brasileira moderna”, “a influência mais decisiva em todos os que vieram depois dele”, como Daniela Mercury confirma num tweet: “Ele ensinou todos nós a cantar da forma mais bela do mundo”.

O menos que é mais

São muitos os artistas que falam da música de João Gilberto como influência, marca maior na sua construção pessoal enquanto criadores, “influência definitiva”, como escreve Gal Costa no Instagram. Porque, como diz a letra de Arnaldo Antunes em homenagem ao autor de Bim Bom: “Quando uma só pessoa/ o silêncio aperfeiçoa/ toda a multidão/ escuta o coração/ e se torna civilização”.

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Caetano Veloso, que está actualmente em Portugal em digressão, chamou-lhe “o maior artista de todos”, antes de dizer à Globo News que João Gilberto lhe “apareceu no momento exacto”, no instante “preciso” da sua vida, “dando sentido mais profundo à percepção das artes em qualquer estágio”. No Instagram, o músico baiano deixou uma foto em palco, falando ao ouvido de João Gilberto, visão de uma conversa íntima.

Como sublinha o produtor musical João Marcelo Bôscoli, João Gilberto “criou um jeito próprio de cantar, um jeito próprio de tocar violão, um jeito intimista, parece alguém conversando com você”. E a cantora Roberta Sá dá conta disso, ao comentar no Instagram: “João não sabia, mas dormia comigo todas as noites. Me ensinou a gostar de samba, de jazz, de bossa, da Bahia e de Copacabana”.

À procura do menos que é mais, de baixar o tom, de erguer-se através do contrário de se colocar em bicos de pés – como se os céus da harmonia e da melodia se atingissem não através de catedrais, mas ao rés-do-chão –, o músico “mudou para sempre a música do mundo”, como escreve Gal Costa.

“Antes de completar 18 anos, aprendi com ele tudo sobre o que eu já conhecia e como conhecer tudo o que estivesse por surgir”, confessa Caetano Veloso na legenda da referida foto. “Com sua voz e seu violão, ele refez a função da fala e a história do instrumento. Pôs em perspectiva todos os livros que eu já tinha lido, todos os poemas, todos os quadros, todos os filmes que eu já tinha visto. Não apenas todas as canções que ouvi. E foi com essa lente, esse filtro, esse sistema sonoro que eu passei a ler, ver e ouvir.” 

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“João fez sozinho a revolução ao minimizar a cadência do samba nas cordas do violão – na tal batida que ele depurou paranóica e incansavelmente ao longo dos anos 1950”, nas palavras do crítico musical Mauro Ferreira no seu blog no G1. “Essa revolução se completou com a opção de João por integrar a voz com o arranjo, sem que o cantor sobressaísse em relação aos músicos” e, assim, “nascia um som leve, harmonioso, original, refinado. Único”, acrescenta.

“Ele tinha um conhecimento monumental do passado musical brasileiro, do samba. E foi isso que permitiu a ele fazer a bossa nova”, diz Ruy Castro. “João Gilberto sabia tudo, sabia de cor tudo o que era importante na música brasileira” entre os anos 1930 e 1960, acrescenta, em declarações à Globo News.

Num outro planeta

No entanto, até ao fim dos seus dias, João Gilberto torceu sempre o nariz à etiqueta que o seu nome trazia de “pai da bossa nova”, porque sempre achou que o que compunha e interpretava era samba, só samba, “um samba muito moderno, dissonante, minimalista, numa combinação perfeita entre voz e violão”, como explica Nelson Motta, mas samba.

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Se muita da sua aversão a entrevistas, a falar em público, se devia à timidez, outra parte advinha de o seu planeta ser outro, parcialmente sobreposto ao nosso, mas cujo núcleo se compunha de harmonias e melodias, de pausas e silêncios, do som e da sua suspensão que parece o silêncio, mas toca mais – Adriana Calcanhotto escreveu no Instagram: “falem baixo, por favor”. Era esse mundo que alimentava obsessivamente os seus dedos sobre as cordas – ensaiava os temas até à exaustão, mergulhava neles, em busca através da repetição do mais simples e primoroso que neles se guardava. E “é como se ele tivesse, neste mergulho dele, voltado com essa bossa nova”, referiu Zélia Duncan no Jornal Nacional da Globo.

“Quando você pensa em outros grandes génios da música vivos, como Paul McCartney ou Mick Jagger, por exemplo, todos eles tinham trabalhado em cima de géneros que já existiam, como o rock’n’roll, mas com o João Gilberto a coisa é diferente, porque ele é, de facto, o criador de um estilo musical que não existia e que influenciou a música do século XX”, disse ao site da revista Época o escritor Paulo César de Araújo.

Criando uma forma de cantar e de tocar sem precedentes, João Gilberto criou “um ritmo que vem flutuando”, na expressão de Paulo César de Araújo. Da voz e do violão, conseguiu a síntese de cordas: vocais e instrumentais. Como disse um dia Caetano Veloso, “melhor do que o silêncio, só João”. Por isso, “falem baixo, por favor” que “a tristeza não tem fim”.