Adeptos de futebol dizem que os seus direitos estão “em perigo”

A 10.ª edição do Congresso Internacional de Adeptos decorreu em Lisboa. Órgão europeu apoiado pela UEFA lamentou a falta de comparência da Liga de clubes, Federação Portuguesa de Futebol e do Governo.

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Auditório UACS, em Lisboa, para receber o congresso europeu de adeptos EFFC 2019/APDA
Os adeptos querem ser ouvidos
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Os adeptos querem ser ouvidos Rui Gaudêncio/arquivo

O livre associativismo no futebol português está em perigo e os adeptos visitantes por toda a Europa merecem melhores condições quando vão apoiar a sua equipa noutros estádios. Estas são duas das principais linhas de força que a Associação Portuguesa de Defesa do Adepto (APDA), entidade organizadora do 10.º Congresso de Adeptos de Futebol Europeu, promovido pela Football Supporters Europe (FSE), defende.

Na primeira vez que o evento decorre fora da sede da FSE, na Alemanha, centenas de adeptos do futebol debatem, até domingo, o papel dos fãs no desporto e apresentam ideias que possam melhorar a condição e experiência dos adeptos e grupos organizados antes, durante e depois de um jogo de futebol das suas equipas.

“Os adeptos são parte do desporto, como os treinadores e jogadores. Se um estádio ficar vazio, o interesse vai-se perder”, declarou ao PÚBLICO Martha Gens, presidente da APDA, entidade que defende o regresso de bebidas alcoólicas nos estádios e um limite máximo nos bilhetes.

Gens aludiu ainda às mais recentes leis sobre grupos organizados criadas após a invasão à Academia de Alcochete, em Maio de 2018, e que se encontram em fase de instrução. E criticou-as, considerando que a identificação de adeptos em grupos organizados é uma medida que viola a privacidade e os direitos humanos. “Não queremos um cartão para assistir a um espectáculo, mas sim um bilhete”. A presidente da APDA lamentou ainda a ausência de representantes da Liga de Clubes, Federação Portuguesa de Futebol (FPF) ou do Governo, apesar de terem sido convidados. “A evolução tem de ser gradual, mas precisamos dessas instituições”, disse.

Também Ronan Evain, presidente da FSE, é crítico em relação à nova legislação contra a violência no desporto aprovada em Portugal. “Não podemos forçar que os clubes ou grupos organizados forneçam uma lista dos seus membros às autoridades. Isto vai contra princípios básicos do livre associativismo. Nenhum adepto de futebol pode ser um alvo”, sustenta Ronan Evain.

Em conversa com o PÚBLICO, Ronan Evain explica que a criação da FSE, em 2009, teve o apoio da federação alemã de futebol, que encaminhou um grupo de adeptos em Hamburgo à UEFA, o actual e principal financiador deste grupo, que exigiu a criação de “um grupo democrático”.

Outro dos participantes no encontro foi o ex-secretário de Estado do Desporto e da Juventude (entre 2011 e 2012), Alexandre Miguel Mestre, que apelou à cooperação do Governo, autoridades e entidades desportivas com estes grupos independentes.

Já Daniel Seabra, antropólogo e investigador de claques de futebol e do hooliganismo. E Seabra também reforçou a necessidade de envolvimento dos adeptos para a diminuição de fenómenos de violência no desporto: “Na introdução às leis sobre o desporto, o Governo garante que consultou todos a gente: jogadores, treinadores, dirigentes, representantes destas figuras e até outros partidos, mas nunca os adeptos”, alertou.

Os desejos dos adeptos europeus

Nos últimos dez anos, para além de estar em contacto com organização com as mesmas reivindicações a nível nacional como a APDA, a FSE tentou “construir políticas na UEFA que estabeleçam padrões mínimos que não existem” para adeptos visitantes, essencialmente quando se deslocam para outro país num jogo de selecções ou de competições europeias de clube. “É onde podemos fazer a diferença. Estes adeptos são os mais vulneráveis. Por não conhecerem a cidade para onde se deslocam, não terem contactos, enfim, uma posição muito frágil. Há muitos clubes que não querem saber dos adeptos visitantes e é isso que estamos a monitorizar. Por exemplo, em Barcelona, paga-se um bilhete para um jogo por 150€. Esse adepto visitante ainda tem de pagar a viagem, estadia e alimentação. Além disso, essas bancadas não têm condições para receber os adeptos, estando quase ao abandono. Não podemos colocar esses adeptos num canto”, descreveu o Ronan Evain.

Antes dos jogos, a FSE também diz estar sensível ao policiamento na Europa em eventos desportivos. “Estamos a trabalhar com o Conselho Europeu para melhorar a actuação policial sobre os adeptos que estão num contexto e dinâmicas culturais diferentes.”

Além disso, este órgão independente vinculado à UEFA está também envolvido em “projectos anti-discriminação racial, anti-homofobia e de igualdade de género na cultura adepta” e em países não-democráticos. “Precisamos de criar pontes entre os adeptos de outras etnias e orientações”, diz Ronan Evain que garante que a “UEFA tem projectos e ideias” e a função da FSE é falar, aconselhar e dar a sua opinião para cumprir a missão de “dar aos adeptos que visitem outro país para ver a sua equipa jogar as melhores condições possíveis”.

Uma rede hospitaleira de adeptos visitantes e engenhos pirotécnicos legais

O Congresso de Adeptos do Futebol Europeu está a desafiar todos os participantes a proporem ideias inovadoras para melhorar a experiência de torcer pelos seus clubes. Uma das principais propostas da edição que decorre é o BedForAwayFans (cama para adeptos visitantes, em português). Este rede, que tem aspirações de crescer por toda a Europa, pretende que os adeptos de determinada cidade recebam gratuitamente nas suas casas apoiantes vindos de fora, oferecendo hospitalidade e todas as indicações necessárias sobre o local.

Outra proposta que gera curiosidade entre os participantes nesta cimeira europeia de adeptos é a apresentação de mecanismos e dispositivos pirotécnicos legais que Dinamarca, Noruega e Estados Unidos usam nos estádios. Os engenhos foram testados no Campo Branca Lucas, nos Olivais.