Milhares de indianas retiram útero para que menstruação não impeça trabalho

Um número substancial dos casos de mulheres que retiram o útero teve como motivação a possibilidade de trabalhar no corte de cana-de-açúcar. Todos os anos, dezenas de milhares de famílias pobres emigram para zonas conhecidas como “faixa do açúcar”.

Narendra modi
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Milhares de mulheres jovens da Índia retiraram os úteros nos últimos três anos para deixarem de menstruar e poderem trabalhar no corte de cana-de-açúcar, em campos onde não há casas de banho e qualquer falta é penalizada.

Duas notícias publicadas recentemente em meios regionais citados esta sexta-feira pela BBC mostram que a Índia, país que considera que as mulheres ficam impuras quando estão com o período, continua a ter uma relação muito problemática com a menstruação. O primeiro tem origem no estado de Maharashtra, com a imprensa indiana a revelar que milhares de jovens mulheres se sujeitaram a procedimentos cirúrgicos para retirar os seus úteros nos últimos três anos.

Um número substancial destes casos teve como motivação a possibilidade de trabalhares nas colheitas e corte de cana-de-açúcar, referem os jornais citados pela estação britânica. Todos os anos, dezenas de milhares de famílias pobres dos distritos de Beed, Osmanabad, Sangli e Solapur emigram para zonas conhecidas como “faixa do açúcar” para trabalharem seis meses no corte de cana-de-açúcar.

Uma vez lá, essas famílias são controladas por empreiteiros, habitualmente relutantes em contratar mulheres, já que o trabalho é muito duro e as mulheres podem ter de faltar um ou dois dias durante os seus períodos. Caso faltem a um dia de trabalho, terão de pagar uma penalização.

Estes trabalhos estão longe de ter boas condições já que as famílias têm de viver em cabanas ou tendas perto dos campos, não há casas de banho, e como o corte da cana-de-açúcar é feito muitas vezes durante a noite, não há horas para dormir nem para acordar.

Além disso, muitas mulheres apanham infecções porque as condições higiénicas são quase inexistentes. De acordo com activistas que trabalham nessa região, muitos médicos encorajam-nas a retirar o útero (o procedimento cirúrgico chama-se histerectomia) mesmo quando elas têm apenas problemas ginecológicos menores fáceis de tratar com medicação.

Como a maioria das mulheres destas zonas se casam muito novas, muitas já têm dois ou três filhos quando chegam aos vinte e tal anos, e como os médicos não as avisam dos problemas que enfrentam ao sujeitarem-se a uma histerectomia, acreditam não haver qualquer problema em retirar o útero. Tudo isto transformou várias aldeias da região em “aldeias de mulheres-sem-útero”.

A questão foi levantada no mês passado na assembleia nacional pelo deputado Neelam Gorhe, tendo o ministro da Saúde de Maharashtra, Eknath Shinde, admitido que se registaram 4605 histerectomias só no distrito de Beed, desde 2016. Segundo sublinhou o ministro regional, embora nem todas estas cirurgias tenham sido feitas em mulheres que trabalham no corte de cana-de-açúcar, o governo criou um comité para investigar vários dos casos.

Um segundo foco de notícias regionais refere-se ao estado de Tamil Nadu e é sobre as mulheres que trabalham na multimilionária indústria de vestuário. Num inquérito feito pela Fundação Thomson Reuters a 100 mulheres, todas disseram ter recebido medicação dada pelos seus empregadores quando se queixaram de dores menstruais, embora a lei preveja um dia de folga. Segundo adiantaram, os medicamentos raramente são fornecidos por médicos e muitas admitiram que não sabem o nome dos medicamentos que tomam nem conhecem os possíveis efeitos secundários.

As costureiras, que provêem na quase totalidade de famílias pobres da região, consideram que estes medicamentos lhes causam problemas de saúde - desde depressões até crises de ansiedade, passando por infecções urinárias e abortos – mas alegam que não podem perder o salário de um dia por causa de dores menstruais. Perante os alertas, a Comissão da Índia para as Mulheres descreveu as condições em Maharashtra como “patéticas e miseráveis” e apelou ao Governo nacional para adoptar medidas que previnam este “tipo de atrocidades”.

O Governo também prometeu monitorizar a saúde das trabalhadoras da indústria de vestuário de Tamil Nadu. Estes relatórios surgem numa altura em que, em todo o mundo, são adoptadas políticas de igualdade de género, para facilitar o acesso e condições das mulheres no trabalho. Na índia, a presença das mulheres no mercado laboral caiu de 36% em 2005-2006, para 25,8% em 2015-16.