Ambientalistas comprovam que aviões fazem mais ruído à noite do que a lei permite

A Zero está a monitorizar desde as 17h de quinta-feira o ruído dos aviões na cidade de Lisboa e concluiu que durante a noite o valor permitido por lei foi ultrapassado.

Lisboa
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Margarida Basto

A Associação ambientalista Zero, que está desde o final da tarde desta quinta-feira no jardim do Campo Grande a medir o ruído dos aviões, detectou “incumprimentos no último período nocturno”.

O equipamento foi instalado pelas 17h de quinta-feira e desde essa hora que está o monitorizar o ruído na zona. Através destas medições verificaram que o valor limite previsto na legislação – 65 decibéis (dB) durante o período diurno e 55 dB durante o período nocturno – foi ultrapassado, tendo sido registado um valor de 66,5 dB.

A legislação prevê três períodos: o período diurno, entre as 7h e as 20h, o período do entardecer, entre as 20h e as 23h, e o período nocturno, entre as 23h e as 7h. No mesmo sentido, existem dois indicadores que permitem avaliar os graus de ruído: o LDEN – que faz a média ponderada das 24h – e o LN – respeitante apenas ao período nocturno. A média máxima para o período nocturno – que diz respeito aos 55 dB referidos – está definida para zonas consideradas mistas. As zonas sensíveis, que abrangem zonas de habitação, escolas ou hospitais, têm um limite máximo mais baixo em 10 valores de dB para cada período.

Segundo Carla Graça, vice-presidente da associação, apesar de a legislação prever que não ocorra nenhum ruído durante a noite, foi criado um regime de excepção em 2004 que permite neste período um máximo de 91 movimentos (descolagens e aterragens) semanais e 26 movimentos diários. A Zero registou, durante a noite, um total de 28 movimentos.

A campanha “Décibeis a mais, inferno nos céus” pretende “alertar e sensibilizar para o ruído dos aviões e o seu impacto na cidade de Lisboa, numa altura em que o Governo português pretende ampliar de uma forma muito significativa a capacidade do Aeroporto Humberto Delgado”, explica a associação num comunicado de imprensa.

“Não se consegue descansar nem de dia nem de noite”

O objectivo da campanha, como explica ao PÚBLICO Carla Graça, é medir o ruído provocado pelos aviões num período total de 24 horas. O acampamento está montado no jardim do Campo Grande, perto da Avenida do Brasil, e é lá que a equipa da associação Zero regista e analisa as medições que o equipamento já montado vai captando. O ruído dos aviões que passam é notório, e a frequência também – muitas das conversas vão sendo interrompidas para esperar que o ruído cesse. Alguns moradores vão aparecendo para apoiar a causa, como Conceição Machado.

Ao PÚBLICO, a moradora classificou o ruído como constante e “ensurdecedor”. “Nós conseguimos perceber que há um aumento de voos significativo e que muitas vezes nas horas em que era suposto não haver voos, de noite e de madrugada, eles continuam a passar”, acrescenta. Queixa-se de que, apesar de todas as medidas tomadas para diminuir a entrada do ruído nas habitações – como os vidros duplos – “não se consegue descansar nem de dia nem de noite”.

Vive há mais de 30 anos no bairro de Alvalade e considera “incomportável” o aumento de voos que se tem verificado. “Enquanto moradora acho que devem ser tomadas medidas o quanto antes de maneira a que não tornemos este bairro um deserto, sem pessoas, sem habitantes”, afirma.

É geralmente à Zero e à Agência Portuguesa do Ambiente que os moradores se dirigem com queixas, dizendo-se cada vez mais preocupados com as repercussões da exposição alargada ao ruído, que passam pelo aumento do stress, maior incidência de doenças cardiovasculares e dificuldades de aprendizagem nas crianças.

O médico e ambientalista Hans Eickhoff explica ao PÚBLICO que o ruído “tem um impacto muito grande a nível de saúde” uma vez que começa por alterar o padrão de sono e desregula o horário de descanso a que o corpo está habituado. Divide-se em dois tipos: o nível médio de ruído, que torna o sono menos reparador, e os picos de ruído, responsáveis pelos despertares – mesmo que a pessoa não se aperceba – que são “fortemente perturbadores”.

Mas os problemas não ficam por aí. O médico afirma que a nível global há um “efeito muito nefasto” em relação à parede cardiovascular, uma vez que aumenta a hipertensão e provoca uma maior incidência deste tipo de doenças – incluindo a trombose.

Texto editado por Ana Fernandes