Outra actriz e outra vez o sexo fazem regressar fantasmas ao cinema de Kechiche

O realizador convida a actriz de Mektoub my Love: Intermezzo, Ophélie Bau, a ver a cópia na sala de montagem, a dizer-lhe o que “choca o seu pudor”; ele depois se comprometerá, “na medida do possível, a eliminar da montagem”. Em causa está uma sequência de 13 minutos de sexo oral que vem confirmando a malaise que é hoje o cinema de Abdellatif Kechiche.

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Ophélie Bau em Mektoub My Love: Intermezzo
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Depois desta Palma a A Vida de Adèle, há seis anos, Léa Seydoux e Adèle Exarchopoulos acusaram o realizador de as ter manipulado

Cinco semanas depois da competição de Cannes, os efeitos da passagem de Mektoub my Love: Intermezzo, de Abdellatif Kechiche, o realizador convida a actriz do seu filme, Ophélie Bau, a ver a cópia na sala de montagem, a dizer-lhe o que “choca o seu pudor” e que ele depois se comprometerá, “na medida do possível, a eliminar da montagem” os planos que a incomodam. Esta carta, publicada no L’Express, é hoje abundantemente citada pela imprensa francesa, do Le Monde ao Le Figaro.

Em causa está uma sequência de sexo oral de 13 minutos, com os protagonistas Ophélie Bau e Roméo de Lacour, de um filme que criou um cisma na Croisette em Maio — por essa sequência em particular, pela sua explicitação, por ela baralhar a percepção de tempo (“são” 13 minutos, poderá parecer interminável…). E sobretudo por o filme se desembaraçar, durante três horas e 28 minutos, de qualquer álibi de narrativa, cortando linhas de fuga e até qualquer horizonte romanesco, isolando-se com as personagens numa discoteca, lançando-se sobre os rabos, a dança e o sexo. É o Verão de 1994 a acabar, Mektoub my Love: Intermezzo é o segundo volume de uma trilogia, desencadeada pela leitura de La Blessure, La Vraie, de François Bégaudeau, que o cineasta de origem tunisina começou com o sensual Mektoub My Love: Canto Primeiro.

Por causa dessa cena, contou-se, Ophélie Bau, depois de cumprir o ritual de desfilar na passadeira vermelha de Cannes durante a sessão de gala, retirou-se da sala no momento da projecção para não ter de ver o filme perante a audiência. No dia seguinte não esteve sequer na conferência de imprensa com o realizador e o restante elenco. Terá sido aconselhada a ausentar-se para se proteger?

Uma e outra coisa não foram justificadas. A dúvida ficou por esclarecer. Ficou por isso a pairar “o filme” de uma tensão entre o realizador e a sua actriz. Se se juntar a isso um testemunho, apresentado como anónimo e publicado no jornal regional Midi Libre poucos dias depois do festival ter terminado, em que se contava que Kechiche fez os actores trabalhar durante horas no plateau (a discoteca La Dune, em La Grande-Motte), esperando que o cansaço e o álcool os levasse a dar-lhe o que ele queria — uma cena de sexo explícita —, identifica-se a malaise que o último filme do cineasta instalou de novo. Fazendo regressar fantasmas, seis anos depois de Léa Seydoux e Adèle Exarchopoulos, as actrizes de A Vida de Adèle, terem acusado o cineasta “torturado” de manipulação logo a seguir ao filme ter merecido aos três, ele e elas, a Palma de Ouro de Cannes.

Kechiche, na carta aberta publicada no L’Express nesta segunda-feira, dirige-se aos agentes da actriz, a empresa Time Art, dizendo-se vítima de um “complot de marionetas” de que “o sindicato dos agentes artísticos francês é o principal instigador”. E faz ironia: “Nesse complot, Ophélie Baufle [nome civil da Ophélie Bau] era suposto passar-se por crispada a meu lado durante a tradicional subida das escadas [na passadeira vermelha] e depois descer precipitadamente, e de preferência emocionada, no seu vestido de alta-costura virginal.” Continua: “Contrariamente ao que vocês pretendem fazer crer, Ophélie Bau aceitou completamente, e de plena consciência, o seu papel nos meus filmes [é também a protagonista de Mektoub My Love: Canto Primeiro, que abre com uma sequência erótica] e nunca manifestou o menor incómodo nem quanto à sua nudez, que publicamente e várias vezes defendeu e aprovou, nem quanto à dimensão erótica de certas cenas.” Kechiche junta um pormenor: “A única coisa que ela reivindicou era poder interpretar essas cenas com um outro actor, Roméo de Lacour, por quem entretanto se tinha apaixonado” —  a sequência chegou a estar prevista passar-se entre ela e Salim Kechiouche, que interpreta a personagem de Tony, de quem a sua personagem era amante no episódio anterior e com quem protagonizava uma sequência de sexo logo na abertura.

Para Kechiche, “o filme é radical” e a escolha de Ophélie, uma assistente de puericultura que descobriu para esta trilogia, “audaciosa”. Dá conta de “inúmeras mensagens” trocadas com a actriz, durante a rodagem e “muito tempo depois”, em que Ophélie terá “elogiado” o método de trabalho do realizador. “Querer, hoje, fazê-la passar por uma pobre rapariga desprovida de discernimento que não sabe o que diz nem o que faz, é mais prejudicial, penso, para a sua psique e para a sua carreira do que a cena em questão.” Às tantas, conclui: “Em vez de procurarem incriminar-me fazendo crer que eu teria oprimido, manipulado ou alcoolizado os actores para os fazer interpretar essa sequência, seria mais construtivo e corajoso, na minha perspectiva, elevar o debate e perceber a que ponto ainda é difícil hoje para uma mulher reivindicar o seu prazer e a sua liberdade.”

Ophélie é agora convidada a sentar-se à mesa de montagem para dizer o que a incomoda. Disso toma nota Élisabeth Tanner, agente da actriz, em resposta, pelo Twitter, a Kechiche. Distanciando-se de qualquer complot, afirmando que o sindicato francês dos agentes artísticos, de que ela é presidente, não deve ser chamado ao caso, e sublinhando que nem ela nem a actriz fizeram qualquer comentário público às condições de rodagem, adianta no entanto que aquilo que Kechiche permite agora a Ophélie foi aquilo que lhe recusou, várias vezes, em vésperas de Cannes: ver a sequência que filmaram. “Por isso, no Festival de Cannes, Ophélie Bau se sentiu particularmente desestabilizada e fragilizada perante a ideia de descobrir pela primeira vez o filme nessas condições”. Por isso se tornou uma figura em fuga em Cannes 2019 e decidiu, depois da passerelle, sair pela porta das traseiras do Palais des Festivals, sem chegar sequer a entrar na sala.

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