A nossa identidade alimentar

O sabor a casa, a família, a férias, a amigos, a restaurantes, a viagens, a memórias, a cultura, a história, a tradição, a saudade são elementos da nossa identidade alimentar pessoal.

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Rachel Park/Unsplash

“Somos o que comemos”, não só pelo valor nutricional (maior ou menor) com que nos alimentamos, pelo impacto disso na manifestação (ou não) das nossas tendências genéticas, nas doenças que temos (ou não) e pela forma mais ou menos satisfeita com que nos sentimos no dia-a-dia, mas também por outros aspectos menos comummente abordados que esta tão conhecida referência a Hipócrates (460-377 A.C.) contém.

O que somos, no que ao que comemos diz respeito, é-o também pelos sabores que preferimos e preterimos, pelos ritmos a que mastigamos e pelas mesas onde comemos. Diz respeito ao que cozinhamos ou escolhemos comprar pronto. É caracterizado pelos critérios mentais que verificamos quando fazemos o pedido num restaurante ou esplanada, quando seleccionamos um produto alimentar no supermercado, máquina de venda automática ou nas compras online.

O que somos compõe a nossa identidade e é ela que nos estrutura, nos permite o auto-reconhecimento e o sentido de pertença. A nossa identidade é contada pela nossa história, pelas nossas escolhas, pelo ser pessoal que selecciona, interpreta, assume, constrói e cumpre (ou não) quem é. A identidade vai, assim, sendo construída, cumprida, atraiçoada ou negada com o conteúdo e a forma com que a alimentamos. E no que à alimentação diz respeito, a identidade alimentar, pessoal e de uma comunidade, assume este poder imenso de conexão, potenciação, construção.

A nossa rotina alimentar — a gestão que fazemos das refeições, das marmitas e das compras, a atenção aos sinais do corpo e a procura por minimizar dificuldades de digestão, alterações gástricas e/ou intestinais, a sensação de enfartamento ou qualquer tipo de mal-estar que, por vezes, o que comemos nos provoca — faz parte de quem somos. Os sabores que nos fazem ter saudades de pessoas, momentos ou épocas, o que identificamos como sendo menu de festa, fim-de-semana ou férias, e o que imaginamos quando pensamos num jantar ideal, conecta-nos, potencia-nos, constrói-nos.

O que nos apetece comer quando o Sol quente surge, a chuva bate na janela ou a maresia se sente no ar. O que propomos tomar quando convidamos alguém para conversar, o que servimos quando nos visitam ou o que levamos de oferta comestível quando somos recebidos noutras casas. O que apreciamos numa mesa e o que nos chama a atenção num mercado. O sabor a casa, a família, a férias, a amigos, a restaurantes, a viagens, a memórias, a cultura, a história, a tradição, a saudade. São elementos da nossa identidade alimentar pessoal. Com eles podemos construir-nos, cumprir-nos, trair-nos, negar-nos ou evoluirmos.

Ao escolher alimentar a nossa identidade, também pelo que comemos, podemos contribuir para quem queremos ser. Ao respeitar, aprender, potenciar e cultivar a identidade alimentar comunitária, podemos contribuir para onde e com quem queremos partilhar a existência.

Da identidade das comunidades e dos territórios faz parte também a identidade alimentar. As sementes e as variedades regionais, os produtos cultivados e os silvestres, as combinações e as receitas. As características territoriais e as adaptações das comunidades criam identidade. Os produtos surgem do território e as receitas e tradições alimentares, da adaptação das comunidades. São estes elementos a base da identidade alimentar local. São chaves da preservação da biodiversidade e da cultura alimentares. Podem ilustrar caminhos de desenvolvimento local, de adaptação ambiental, de potenciação da diversidade que constitui também a riqueza nutricional.

Descobrir, respeitar, valorizar e potenciar a identidade alimentar local é um caminho de promoção de uma alimentação mais sustentável, de harmonização da Alimentação dos 3Ss: sustentabilidade, saúde e sabor e de enriquecimento da identidade alimentar pessoal.

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