Opinião

A Cimeira do G2

A última cimeira do G20 funcionou como a metáfora do mundo que aí vem.

Não, não me esqueci do 0. Esta foi mesmo a cimeira do G2. O G20 foi criado em 1999 durante a crise financeira asiática e alargava o G7, que reunia as economias mais desenvolvidas, a um conjunto importante de economias em desenvolvimento. O objectivo era simples e limitado: favorecer a cooperação monetária entre as maiores potências e assegurar a estabilidade financeira nos mercados internacionais. O sucesso inicial fez com que alargasse o objectivo e o campo de actuação. Da política macroeconómica para um âmbito mais vasto: livre comércio, crescimento, luta contra a corrupção ou lavagem de dinheiro. E, finalmente, o salto político para as grandes questões da segurança global e dos desafios transacionais: alterações climáticas, saúde global, migrações internacionais ou terrorismo transnacional.

Uma década depois, na resposta à crise financeira de 2008/9, o G20 jogou um papel central e, como é natural, evoluiu de um fórum de ministros das Finanças e governadores de bancos centrais para uma cimeira de chefes de Estado e de governo. Tornou-se o lugar, por excelência, da global governance e as suas reuniões anuais o momento privilegiado em que os líderes mundiais tratavam, pessoalmente, dos problemas internacionais mais delicados. Era um produto da globalização para gerir e defender a globalização. E onde as potências, estabelecidas ou emergentes, se comprometiam a cooperar no plano económico e a convergir no plano político para um consenso multilateral sobre as questões globais e, mais do que isso, sobre o modelo único da ordem internacional liberal. Mais cedo ou mais tarde, todos evoluiriam para a economia de mercado e o livre comércio, a democracia liberal e a ordem multilateral.

Ora, na última década o mundo mudou. Mudou o espírito de cooperação e a convergência no interior do G20, hoje, atravessado por múltiplas divisões. E mudou, sobretudo, a posição dos Estados Unidos sobre a ordem liberal que criaram, de que beneficiaram, e que hoje a administração Trump está a liquidar. A globalização que prometera prosperidade e bem-estar para todos agravou as desigualdades e enfrenta, hoje, resistências proteccionistas e medos identitários em todo o mundo. No interior do G20, a cooperação foi substituída pela rivalidade, a convergência pela divergência e, em muitos dos seus membros, o multilateralismo cedeu o lugar ao unilateralismo e a democracia liberal às soluções iliberais. O G20 é uma herança do mundo que o criou e que hoje já não existe. O que existe reflecte o mundo de hoje e é uma outra coisa. 

Como se viu, aliás, na Cimeira de Osaka, no fim de semana passado. Estas cimeiras são compostas por dois acontecimentos diferentes: por um lado, as reuniões formais de natureza multilateral de onde sai a declaração oficial; por outro, um conjunto de reuniões bilaterais de natureza informal. E o sucesso das cimeiras mede-se pela capacidade de resolver problemas e definir agendas futuras. Ora, dantes, o foco estava no plano multilateral e na declaração formal da cimeira. Agora, o foco esteve centrado nas reuniões bilaterais, em particular no encontro entre Donald Trump e Xi Jiping. O resultado foi positivo, as tréguas declaradas e as negociações sobre o conflito comercial irão recomeçar entre os Estados Unidos e a China. Uma luz ao fundo do túnel. 

Mas uma coisa é certa: independentemente dos progressos conseguidos na agenda formal, o sucesso da cimeira decidiu-se no encontro dos dois líderes mundiais e na sua capacidade de chegaram a um acordo. Foi por isso a Cimeira do G2. E porquê? Porque nunca até então a rivalidade entre a potência estabelecida e a potência emergente tinha sido tão evidentemente exposta numa Cimeira do G20. E porque a cimeira funcionou como a metáfora do mundo que aí vem. Um mundo polarizado entre duas esferas geoeconómicas e a prazo geopolíticas.

Putin ainda quis fingir que é grande. Mas como não tem mais nada, teve que dar uma entrevista a dizer que o liberalismo está obsoleto. Nacionalista e autoritário, por uma via ou por outra, sempre se sente mais próximo dos grandes. Mas ele sabe, como nós sabemos, que o futuro se joga entre os Estados Unidos e a China. Mais difícil será a vida para os europeus. Que partilham princípios e valores democráticos com os Estados Unidos mas são mal tratados por Trump. E que, ao mesmo tempo, os não partilham com a China, mas são bem tratados por Xi. Como dizia o outro, a decisão entre Washington e Pequim não é uma alternativa, é um dilema.