Opinião

Plano de Emergência: no futuro não teremos professores. A sério?

Mentir com números é fácil, mas sem eles é muito mais fácil. Desmontemos então a ideia de urgência por falta de professores.

Era uma vez uma história que por ser contada tantas vezes corre o risco de se tornar verdadeira.

Nos últimos tempos temos assistido ao alarme da falta de professores, e até a propostas para alargar a base de recrutamento de professores, pois a situação é uma emergência nacional. Estão a falar a sério? Será que alguém já se deu ao trabalho de olhar para os dados e construir um verdadeiro planeamento? Sabia que Portugal é um dos poucos países que não tem instrumentos para prever as necessidades de contratação?

Mentir com números é fácil, mas sem eles é muito mais fácil.

A verdade da referida história prende-se com o facto de a profissão estar cada vez mais desvalorizada. Ser professor hoje não tem o mesmo estatuto que já teve. Não atrai o mesmo perfil de pessoas. Mas a maior parte das restantes profissões também não. É natural. Quanto maior é o número de pessoas com formação universitária, que habilita para certas carreiras profissionais, menor é o espanto associado ao esforço de graduação. Um diamante é valioso porque é raro. Um seixo da praia pode ser bonito, ser importante no ecossistema, mas certamente não é raro nem alvo de grande espanto.

Devemos fazer um esforço coletivo para valorizar a profissão? Sim. Mas valorizar a profissão nada tem a ver com empurrar mais jovens para este tipo de qualificação, muito menos com baixar os critérios de acesso. Bem pelo contrário. Ser difícil e exclusivo é uma das variáveis que determina o prestígio de um grupo profissional.

Desmontemos então a ideia de urgência por falta de professores. Façamos um esforço para separar falta de professores para colocar com um horário de tempo inteiro e dificuldade em substituir temporariamente um docente, por motivo de baixa médica ou outra ausência temporária.

A colocação de professores a tempo inteiro está saudável e há excesso de oferta. Há muito mais professores a candidatarem-se do que vagas a abrir. Especialmente no ensino pré-escolar e primeiro ciclo. O sistema está sobre dimensionado. Contratou-se a pensar em mais de 100.000 crianças a ingressar por ano, e agora temos pouco mais de 80.000. Os poucos filhos da crise e da redução da natalidade já chegaram ao primeiro ciclo, vão chegar aos seguintes. No total o sistema vai perder mais de 200.000 alunos. Temos excesso de professores para uma população 15 a 20% mais pequena.

Mas os professores estão envelhecidos, e há reformas em massa. Estão envelhecidos, não há jovens a entrar no sistema. Mas o ritmo a que se reformam é menor que a diminuição da população estudantil. A menos que o dono do cofre autorize reformas antecipadas ou semelhante, não vamos necessitar de contratar ninguém até 2025. E apenas a partir de 2030 vamos necessitar de cerca de 4000 professores por ano. No sistema todo – do pré-escolar ao 12.º ano.

Se olharmos apenas para o 1.º ciclo serão necessários 500 a 600 por ano. Estamos ainda a formar demais, temos 8000 que ficam sem colocação e continuam a concorrer, formamos 4000 por ano. Devíamos formar menos e aproveitar a oportunidade para atrair os melhores.

Outra questão totalmente diferente prende-se com a contratação para substituir. Sim, há alguns grupos de recrutamento em que o número de professores disponíveis para substituição é reduzido. Estamos a falar de Alemão, Espanhol, Geografia, Latim e Grego e algumas tecnologias. Mas na generalidade dos restantes grupos docentes há bastantes professores em espera. O problema da dificuldade de substituição prende-se com um sistema burocrático que leva tempo. Facilmente uma turma fica duas ou três semanas sem aulas, a direção da escola tem de se arrastar por uma série de passos e barreiras que demoram. Quando finalmente conseguem, há uma forte probabilidade de o professor titular estar de regresso. As recomendações políticas deviam focar-se em agilizar estes processos. Mapear os professores disponíveis, criar condições dignas para os professores substitutos estarem disponíveis onde são necessários.

É urgente planear.

Uma história muitas vezes repetida pode tornar-se uma verdade, mas os jovens professores do futuro continuarão desempregados e com expetativas frustradas. A profissão tornar-se-á menos valorizada e com menor capacidade de atrair os melhores.

A autora escreve segundo o novo Acordo Ortográfico