Com Lagarde, a expectativa de continuação de juros mínimos no BCE sai reforçada

Se como presidente do BCE fizer aquilo que defendeu como líder do FMI, Lagarde irá conduzir a política monetária da zona euro ao estilo de uma “pomba”, que é o mesmo que dizer ao estilo de Mario Draghi.

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Reuters/Carlos Jasso

Uma política monetária semelhante à dos últimos anos, respondendo ao abrandamento económico recente com mais estímulos e descidas de taxas de juro é o que se pode esperar de um Banco Central Europeu liderado por Christine Lagarde.

Depois de ter sido a primeira mulher a ocupar o cargo de directora-geral do Fundo Monetário Internacional (que suspendeu esta terça-feira), Lagarde prepara-se agora para quebrar a mesma barreira no BCE, uma instituição com um historial de falta de diversidade de género na sua liderança muito acentuado. E, tendo em conta o que têm vindo a ser as posições assumidas pelo FMI e por si própria relativamente à condução da política monetária na zona euro, a expectativa neste momento é claramente de uma continuidade no BCE, com aqueles que defendem a necessidade de manutenção de políticas expansionistas a saírem vencedores.

Com formação em Direito, mas uma vasta experiência na condução da política económica, Christine Lagarde é aquilo a que, ao nível da política monetária, se denomina como uma “pomba”, isto é, alguém que defende em dado momento medidas mais expansionistas — como descida das taxas de juro — em contraponto com os chamados “falcões”, que defendem medidas mais restritivas.

Como líder do FMI, a francesa tem apoiado frequentemente ao longo dos últimos anos as medidas extraordinárias de estímulo aplicadas pelo BCE de Mario Draghi, incluindo a redução das taxas de juro para níveis mínimos históricos ou a compra de dívida pública em larga escala para aumentar a liquidez na economia.

E em relação ao actual momento — em que um abrandamento da economia europeia está a fazer o BCE repensar a sua tentativa de regresso à normalidade da política monetária —, Lagarde deixou claro que prefere que o banco central seja bem mais lento na retirada dos estímulos que tem em vigor. Num texto publicado a 5 de Junho, a directora executiva do Fundo defendia que “a actividade económica global beneficiaria de um ritmo mais paciente de normalização monetária da Reserva Federal norte-americana e do BCE”.

Este tipo de declarações públicas criam a expectativa — de uma forma bem mais clara do que a maioria dos outros nomes que tinham sido apresentados como candidatos a suceder a Draghi — de que a nova líder do BCE, no mínimo, deverá a partir de Outubro prolongar a política expansionista do BCE, mantendo as taxas em mínimos e não iniciando a redução do balanço do BCE, e estará preparada, tal como Draghi, para “fazer o que for preciso” para preservar o euro em caso de nova crise grave.

Uma característica de Christine Lagarde que será também relevante para o seu mandato de oito anos no BCE é o facto de até aqui ter sido essencialmente uma política. O papel que deve ser desempenhado pelo BCE é causa de divergências entre as capitais europeias, com Berlim, por exemplo, a preferir que o banco central contribuísse menos para aliviar os problemas orçamentais dos Estados.

Na eventualidade de uma nova crise financeira, essas divergências certamente acentuar-se-iam, e Lagarde teria de encontrar um equilíbrio entre a sua experiência de negociações políticas adquirida como ministra e no FMI durante a última crise e o seu novo papel de líder uma instituição supostamente independente dos governos e apenas preocupada com o seu mandato de estabilidade de preços.