Opinião

Espanha voltou a casa

No meio está a virtude é uma expressão popular que encaixa como uma luva num campo de futebol. Adaptada ao contexto, e se me é permitida a liberdade, será qualquer coisa como: no meio-campo estão os virtuosos. Poderá ser mais verdade numas equipas do que noutras, mas poucas dúvidas haverá de que a selecção de Espanha de sub-21 dá corpo a esta máxima com pinceladas de artista. Mais do que a conquista do Europeu da categoria, fica a impressão duradoura de um regresso a casa.

Não consigo evitar uma viagem até ao Euro 2004 quando olho para o percurso da equipa espanhola em Itália. Tal como Portugal há 15 anos, entrou em cena com o pé esquerdo (derrota justíssima diante do anfitrião) mas teve a humildade e a astúcia de emendar a mão, retomando uma zona de conforto que coincide com o seu ADN. No caso de Luiz Felipe Scolari, essa teia genética chamava-se FC Porto, a Luis de La Fuente bastou-lhe recapitular lições passadas.

Em teoria, a cartilha do treinador que começou a carreira na equipa secundária do Athletic Bilbau tinha razão de ser. Compreende-se onde queria chegar quando disse, numa entrevista recente, que embora seja um admirador do jogo de posse, sente necessidade de dar outro tipo de respostas sempre que as circunstâncias o solicitam. Por outras palavras, as do próprio: “Quando temos de jogar directo, jogamos directo”.

Pois bem, o primeiro esboço dessa tentativa teve de ser rasgado - ou guardado com anotações na esperança de um aperfeiçoamento futuro. Para se agarrar à competição como a um helicóptero de resgate, De la Fuente virou a equipa do avesso: prescindiu de um avançado convencional (Mayoral) para jogar com um falso nove (Oyarzabal), dotou o tridente interior do meio-campo de mais critério e criatividade e juntou-lhe ainda dois médios suplementares (Olmo e Fornals) que criaram sempre mais por dentro do que pelos corredores laterais.

Em vez de uma overdose de corredor central, o que se viu foi uma capacidade adicional de explorar o espaço entre linhas, também por força do primeiro passe cirúrgico de Marc Roca ou Fabián Ruiz (eleito o melhor jogador do torneio). Foi uma multiplicação de linhas de passe que nasceu das trocas posicionais mais frequentes no sector, que também beneficiou dos timings de decisão de Dani Ceballos. Foi a criação de espaços onde pareciam não existir graças aos movimentos de arrastamento de Oyarzabal.

O primeiro golo da final é um exemplo perfeito desta relação quase telepática que as diferentes fornadas das selecções espanholas têm alimentado ao longo dos anos. Passe vertical a romper linhas, avançado a baixar e a atrair um central para combinar de primeira e deixar um dos médios em posse e de frente para o jogo. A chamada dinâmica do terceiro homem a funcionar na perfeição, abrilhantada por um remate tão espontâneo quanto certeiro.

Luis de La Fuente tinha a vantagem de já ter trabalhado nos sub-19 com nove dos jogadores da convocatória. Sabia o que podiam dar ao jogo e em que zona do terreno poderiam ser mais-valias. Sabia que, apesar de alguns terem sido obrigados a procurar além-fronteiras o espaço que lhes vedaram em Espanha, aliavam qualidade e maturidade em doses suficientes para fazerem a diferença.

Curiosamente, Espanha até terminou a final abaixo da Alemanha em muitos dos indicadores estatísticos mais relevantes, a começar pela posse de bola. Impôs-se, acima de tudo, pela objectividade dessa posse, construindo com mais critério e criando mais oportunidades reais do que o rival. Envolveu os laterais para dar largura (o esquerdino Junior foi o mais incisivo) e chegou com relativa facilidade a zonas de criação. Pecou aqui e ali na definição, é certo, mas também protagonizou um momento supremo com aquele chapéu de Dani Olmo já com a linha de baliza ao alcance de um braço.

Não deixa de assistir razão ao seleccionador quando alude à necessidade de adaptar o jogar da “sua” Espanha às exigências do jogo. Haverá momentos em que poderá fazer sentido, até como fonte de surpresa para o adversário. O que não faz sentido é tornar essa abordagem no plano A de um conjunto de estetas capazes de transformarem um jogo de futebol numa obra de arte em movimento. É tirar-lhes o pincel das mãos.

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