Todos os dias há mais de 17 mil utentes que não encontram medicamento na farmácia

Estudo estima que sistemas de saúde terão perdido entre 35,3 a 43,8 milhões de euros nos últimos 12 meses em consultas para alterar prescrições devido à indisponibilidade de determinados medicamentos.

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Rui Gaudencio

Nos últimos 12 meses, mais de 370 mil utentes tiveram de interromper tratamento por algum tipo de indisponibilidade de medicamentos, de acordo com um estudo realizado pelo Centro de Estudos e Avaliação em Saúde (Cefar) da Associação Nacional de Farmácias (ANF).

De acordo com os resultados preliminares, a que o PÚBLICO teve acesso, mais de metade dos utentes (52,2%) relataram que, no último ano, experienciaram algum tipo de indisponibilidade — a estimativa é que corresponda a 3,4 milhões de utentes. 

Esta indisponibilidade deve-se, na maioria dos casos, a ruptura de stock (59,6%) — indisponibilidade do medicamento pelos fornecedores —, mas também devido a stocks em falta, situações em que não é possível aceder ao medicamento até um período máximo de 12 horas.

O estudo teve por base 22 mil questionários respondidos por utentes e 1110 aplicados a colaboradores de farmácias. Numa estimativa que tem em conta que 95% da população portuguesa adulta foi pelo menos uma vez à farmácia ao longo do último ano e que, destes, 81% foram três ou mais vezes nos últimos seis meses, a extrapolação fez-se tendo como base o total de utentes que visitaram a farmácia pelo menos três vezes nos últimos seis meses, 6,6 milhões de pessoas.

É através destes cálculos que a ANF conclui que, todos os dias, há 17.200 utentes que não encontram o medicamento pretendido no momento do atendimento.

No documento de apresentação dos resultados preliminares do estudo, o Cefar refere que um em cada cinco utentes (1,4 milhões) referiu que “tiveram que se deslocar ao médico para alterar a prescrição devido às indisponibilidades”. A ANF estima que o impacto económico directo das consultas para alterar a prescrição seja entre 35,3 a 43,8 milhões de euros para os sistemas de saúde, e de 2,1 a 4,4 milhões de euros para os utentes. Já do lado das farmácias, cada uma perde quase 10 mil euros por mês no tempo gasto pelos colaboradores a gerir a falta destes medicamentos.

Outro dado preocupante é que um em cada três utentes que já tinham procurado medicamentos previamente continuou sem conseguir comprar o que precisava. Já cerca de 370 mil pessoas — 5,7% dos utentes — deixaram de tomar algum medicamento devido à sua indisponibilidade.

Num estudo anterior do Cefar sobre indisponibilidade de medicamentos em 2018, no topo da lista dos medicamentos mais frequentemente em falta no ano passado surgiam o Sinemet, um medicamento para a doença de Parkinson, que esteve em ruptura de abastecimento em 2018; o Tarjenta (para a diabetes tipo 2); e a aspirina GR (para tromboses e enfartes), além do Spiriva (doença pulmonar obstrutiva crónica) e o Adalat (hipertensão).

Em Fevereiro deste ano, o Infarmed recebeu um abaixo-assinado de 24 farmácias a pedir a sua intervenção para pôr fim à escassez de medicamentos. No abaixo-assinado com o título “Pelo acesso aos medicamentos, pela garantia da saúde dos portugueses”, as farmácias pediam à Autoridade Nacional do Medicamento (Infarmed) para que “reforce e adopte todas as medidas que ponham termo à situação actual de degradação do sistema de distribuição e à generalizada escassez de medicamentos que se observa nas farmácias”.

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