Brasil sai à rua para louvar Moro e aplaudir a Lava-Jato

Várias cidades brasileiras aderiram às manifestações de apoio ao ministro da Justiça, no mesmo dia em foram reveladas novas mensagens da Vaza-Jato. Procuradores criticaram entrada de Moro no Governo e desconfiaram de depoimentos da principal testemunha contra Lula.

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Manifestação em Copacabana, no Rio de Janeiro EPA/Antonio Lacerda
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Boneco insuflável de Lula da Silva, o célebre pixuleco, em Brasília Reuters/Adriano Machado
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Manifestantes agradecem a Moro e criticam Lula Reuters/PILAR OLIVARES
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Enorme ajuntamento em frente ao Congresso (Brasília) Adriano Machado/REUTERS
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Em Brasília, junto ao insuflável de Moro vestido como Super-Homem Adriano Machado/REUTERS

Dezenas de cidades brasileiras aderiram este domingo às manifestações de apoio à Lava-Jato e ao ministro da Justiça, Sérgio Moro, naquela que é a primeira grande demonstração pública desde que o site Intercept Brasil divulgou uma série de alegadas mensagens, trocadas entre os procuradores da operação judicial e o ex-juiz, que colocaram em causa a sua imparcialidade na condução do julgamento que levou o antigo Presidente Lula da Silva à prisão e que o impediu de concorrer às presidenciais. E que conhecem, por estes dias, novos capítulos e revelações.

Brasília, Rio de Janeiro, São Paulo, Curitiba, Belo Horizonte e Salvador da Bahia, foram algumas das cidades que juntaram milhares de brasileiros que, vestidos com as cores da bandeira do Brasil – verde e amarela – e munidos com cartazes de apoio a Moro, louvaram a Lava-Jato, criticaram o Partido dos Trabalhadores e negaram as denúncias de perseguição política ao ex-chefe de Estado petista.

Na capital, foram os bonecos insufláveis de Lula, vestido de prisioneiro, e de Moro, personificado de Super-Homem, que se destacaram no meio do enorme ajuntamento de pessoas em frente ao Congresso Nacional. E entre os cartazes empunhados pelos manifestantes, em todo o país, leram-se mensagens como “Mexeu com Moro, mexeu comigo”, “Moro nos livrou das trevas” ou “Somos todos Moro”.

“Eu vejo, eu oiço”, agradeceu o ministro Justiça no Twitter, acompanhando a mensagem com um vídeo das manifestações no Rio de Janeiro.

Convocadas inicialmente como manifestações de apoio a Moro, as demonstrações acabaram por agregar outras duas intenções: aplaudir o pacote anticrime apresentado pelo ministro da Justiça no Congresso; e apoiar a reforma da Previdência – o sistema de segurança social brasileiro.

Os grandes mobilizadores das demonstrações foram os grupos Vem Pra Rua, Movimento Brasil Livre e Movimento Nas Ruas, que nasceram e cresceram durante o conturbado processo que culminou com a deposição da ex-Presidente Dilma Rousseff, em 2013, e que se tornaram numa base de apoio importante do bolsonarismo e de Sérgio Moro.

O objectivo dos grupos é superar a participação popular das manifestações de 26 de Maio, de apoio ao Presidente Jair Bolsonaro – convocadas, por sua vez, como resposta aos protestos estudantis contra os cortes do Governo na Educação –, distribuídas por mais de 150 cidades. A organização aponta para demonstrações em mais de 200 cidades e revela que foram convidadas 318 mil pessoas.

Novo “vazamento”

Os protestos deste domingo surgem horas depois de o Intercept Brasil e de o jornal Folha de São Paulo terem divulgado novas mensagens, trocadas pelos procuradores da Lava-Jato, alargando o dossiê do escândalo já conhecido por Vaza-Jato

Depois de o conteúdo das primeiras mensagens ter indiciado que o ministro da Justiça não respeitou os princípios básicos de imparcialidade e de distanciamento, quando era juiz, no processo que levou à prisão de Lula, as novas mensagens exibem a indignação dos procuradores com a possibilidade de Moro vir a integrar o Governo do grande beneficiário da proibição de participação de Lula nas presidenciais – Jair Bolsonaro.

Para além disso, dão conta da desconfiança da acusação sobre os depoimentos da principal testemunha do caso do tríplex do Guarujá – pelo qual o ex-Presidente foi condenado, por corrupção e lavagem de dinheiro, a nove anos e meio de prisão.

“Se [Moro] aceitar [o cargo de ministro da Justiça] vai confirmar para muitos a teoria da conspiração. Vai ser um prato cheio. Às vezes, o convite, ainda que possa representar reconhecimento (merecido), vai significar para muita gente boa e imparcial, que nos apoia, sem falar da imprensa e o PT, uma virada de mesa, de postura, incompatível com a de juiz”, lamentou o procurador Antônio Carlos Welter, segundo as mensagens publicadas no sábado pelo Intercept.

“Acho péssimo. Vai queimar a LJ [Lava-Jato] Já tem gente falando que isso mostraria a parcialidade dele ao julgar o PT. E o discurso vai pegar. Péssimo. E Bozo [Bolsonaro] é muito mal visto… se se juntar a ele vai queimar o Moro”, reagiu Laura Tessler outra procuradora da operação judicial.

Moro e seus apoiantes afiançam que o ex-juiz não fez nada de mal e que o teor das mensagens foi “adulterado” pelo “grupo criminoso organizado” que passou as mensagens ao Intercept Brasil.

Num artigo publicado este domingo na Folha é noticiado que as constantes mudanças no depoimento de Léo Pinheiro, dono da construtora OAS, causaram estranheza e desconfiança juntos dos procuradores. “Sobre o Lula, eles [a defesa de Pinheiro] não queriam trazer nem o apartamento do Guarujá. Diziam que não tinha crime”, terá escrito aos colegas o procurador Sérgio Bruno Cabral Fernandes.

Segundo o jornal brasileiro, o testemunho do empresário foi descredibilizado durante muito tempo e só ganhou força e virou delação premiada, depois de este ter garantido, na sua versão final, que Lula recebeu dinheiro da OAS, em troca de contractos da petrolífera estatal Petrobras, pago através das obras de remodelação do famoso tríplex.