Opinião

Vamos falar sobre disfunção eréctil

Em Portugal, estima-se que cerca de meio milhão de homens sofra desta condição, que é já considerada como um problema de saúde pública a nível mundial.

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John Devolle/Getty Images

A existência de dificuldades ocasionais na resposta de excitação sexual é uma experiência comum à maioria dos homens e na generalidade das situações não se reveste de qualquer significado clínico. Contudo, a experiência recorrente e persistente de dificuldades em atingir ou manter uma erecção adequada durante a actividade sexual, aliada a um desconforto individual significativo, já é sugestiva de um quadro clínico de disfunção eréctil e deve ser alvo de atenção clínica.

Independentemente dos factores que possam estar na sua origem, ou dos mecanismos envolvidos na sua manutenção (doenças médicas, factores emocionais, abuso de substâncias), a disfunção eréctil apresenta-se hoje como uma das queixas sexuais mais frequentemente encontradas em homens sexualmente activos da população geral e no topo das dificuldades sexuais apresentadas por homens/casais que procuram ajuda especializada. Em Portugal, estima-se que cerca de meio milhão de homens sofra desta condição, que é já considerada como um problema de saúde pública a nível mundial e que contribui para uma diminuição significativa da qualidade de vida do indivíduo (e do casal).

O silêncio não é solução  

Vivemos numa sociedade dominada por discursos simplistas e muito pouco rigorosos acerca do que é, ou do que é suposto ser, uma vida sexual saudável e gratificante. Do ponto de vista da sexualidade masculina (e também cada vez mais da feminina...), verifica-se que a performance sexual tem sido vulgarmente enfatizada enquanto pré-requisito essencial para uma vida sexual satisfatória. O conhecimento científico e a experiência clínica mostra-nos que fazer depender a sexualidade e o prazer sexual exclusivamente da qualidade da resposta eréctil ou de questões associadas à genitalidade é absolutamente redutor e não tem em conta a forma única como cada um vive e expressa a sua sexualidade.

Os homens que se identificam com estas ideias preconcebidas que colocam uma ênfase excessiva no desempenho sexual (“um homem está sempre pronto para o sexo”, “um verdadeiro homem tem relações sexuais com muita frequência”, “a erecção do pénis é essencial para satisfazer sexualmente a mulher”) estão mais vulneráveis ao desenvolvimento de dificuldades sexuais, na medida em que estas ideias ou mitos sexuais os tornam reféns das suas próprias erecções para se sentirem parceiros sexualmente competentes. Uma vez posta em causa a sua masculinidade, o embaraço, a vergonha e, por vezes, também a culpa, silenciam a oportunidade de abordar este tipo de dificuldades com um especialista e de receber uma orientação clínica eficaz e diferenciada para este tipo de problemática.

E... a disfunção eréctil tem tratamento?

Sim. Independentemente dos factores que podem estar na sua origem, a disfunção eréctil tem tratamento. De entre as diversas modalidades terapêuticas actualmente disponíveis, os estudos mais recentes mostram de uma forma bastante consistente que a utilização de uma abordagem terapêutica multidisciplinar, que combine intervenção médica e terapia sexual, é altamente eficaz no tratamento da disfunção eréctil. Assim, mais do que apenas o restabelecimento da função eréctil, uma intervenção sexual compreensiva e eficaz deve privilegiar a aquisição de estratégias facilitadoras de gestão das dificuldades por parte do indivíduo e/ou do casal.

Neste sentido, os estudos clínicos realizados no SexLab têm mostrado que as intervenções psicológicas de natureza cognitivo-comportamental apresentam uma elevada eficácia terapêutica não apenas ao nível da resposta de erecção, mas também, e sobretudo, ao nível do funcionamento sexual em geral e da satisfação sexual, a curto e a médio prazo, para o homem e para o casal. (Para saber mais sobre este estudo, clique aqui).

Apesar de ainda haver algum caminho a percorrer, felizmente hoje em dia há cada vez mais profissionais de saúde (médicos, enfermeiros, psicólogos, fisioterapeutas) habilitados e sensibilizados para as problemáticas da esfera sexual e que podem facilitar de forma decisiva o acesso a uma boa orientação clínica para o tratamento das mesmas. 

Assim, independentemente do tipo de problemática, da idade, do género ou da orientação sexual, cuidar da saúde sexual não é um preciosismo, mas significa zelar pela saúde física e emocional, tendo em vista a melhoria do bem-estar geral e a qualidade de vida de cada indivíduo e de cada casal.