Camané e Mário Laginha: silêncios a dois

Antes da actuação no Med, revelaram ao PÚBLICO que, em Setembro, avançarão para a gravação de um álbum.

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Não é nova – é, na verdade, bastante antiga – esta ideia de a voz fadista se fazer acompanhar ao piano. No tempo em que o fado vivia na boémia lisboeta, na segunda metade do século XIX, era ao piano que se escutava quando subia da rua aos salões aristocráticos da cidade. Por isso, argumenta Camané em conversa com o PÚBLICO horas antes da sua actuação com Mário Laginha na 16.ª edição do Festival Med, em Loulé, esta é uma ligação natural, construída em torno dos silêncios. E até mesmo mais tarde, quando Alain Oulman compôs para Amália Rodrigues e ajudou a revolucionar a linguagem fadista, era ao piano que se sentava para criar as harmonias que depois entregava à maior voz da História do fado. O próprio Camané recorda que, ao receber de Nicholas Oulman (filho do autor), inéditos de Alain que viria a interpretar, como Sei de um rio, foi em gravações ao piano que os escutou pela primeira vez.

Um desses inéditos de Oulman juntar-se-á brevemente a dois temas de Laginha que o pianista compôs (para poemas de Maria do Rosário Pedreira e João Monge), a fim de integrarem o reportório que os dois gravarão em Setembro num álbum que fixará esta parceria explorada no espectáculo Aqui Está-se Sossegado (título de um tema do bisavô de Camané, José Júlio Paiva, incluído no alinhamento). Será o cúmulo de uma relação musical que começou a tomar forma a três, com Bernardo Sassetti, num espectáculo então designado Vadios. Com o desaparecimento de Sassetti, Camané e Laginha começaram, aos poucos, a reencontrar-se em palco uma ou duas vezes por ano. E o pianista havia de compor Ai Margarida, sobre um poema de Álvaro de Campos, como uma das novidades do best of de Camané O Melhor de (1995-2013).

Com a reincidência da parceria, Camané acabaria por desafiar Laginha a aprofundar a ligação entre piano e voz, procurando novos caminhos. “O Camané chamou-me a atenção para ir à procura de uma maneira de acompanhar o fado que tivesse que ver com fado mas que não passasse por copiar o que fazem os guitarristas”, conta Laginha. “Porque realmente o primeiro passo foi aprender com eles. Mas depois comecei a identificar elementos que pertencem à linguagem do instrumento e foram aparecendo outras soluções.”

Preocupado em não roubar a Camané o espaço em que se possa “sentir livre para estilar” – a expressão usada no fado para a improvisação e a forma de cunhar uma interpretação pessoal nos tradicionais –, Laginha não impõe uma linguagem jazzística à música do duo, aproximando-se do universo natural do cantor. O que faz com que Camané se diga “super confortável” com esta abordagem, seguro de que “o fado tem uma personalidade melódica incrível”, capacitado para resistir nos mais diversos contextos. Aqui, de resto, nada periga essa característica fadista. Porque tudo acontece num constante jogo de escuta e de resposta. “Cada um faz a sua parte”, resume Camané. Parece uma evidência, mas tem mais do que parece. Porque fazem-no virados um para o outro, esperando-se, como se tentassem sempre acertar o passo e chegar a um lugar comum, vindos de sítios diferentes, no mesmo exacto momento.

G.F.

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