Apoio familiar e objectivos realistas: a chave para o sucesso de João Félix além-fronteiras

Avultada soma despendida pelo futuro clube poderá exercer uma pressão extra sobre o jogador, defendem psicólogos ouvidos pelo PÚBLICO. Tenra idade, aparente “timidez” e “boa imagem” podem ter influência numa compra futura.

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Apesar de ainda não existir confirmação oficial, o anúncio feito pelo Benfica de uma proposta de 126 milhões de euros pelo passe de João Félix deixa pouca margem para dúvidas: o miúdo formado no Seixal deverá mesmo mudar-se para um gigante europeu, entrando no top das transferências mais caras de sempre. Será um salto demasiado grande — e precoce — para o jovem de 19 anos? Conseguirá estar à altura das expectativas dos adeptos, dirigentes e accionistas do próximo clube?

Na opinião de Daniel Sá, especialista em marketing desportivo e director-executivo do Instituto Português de Administração de Marketing (IPAM), o valor avultado despendido numa eventual transferência será uma fonte extra de pressão para o internacional português, cujo sucesso global estará intimamente ligado às boas prestações dentro das quatro linhas: “Será difícil construir um ídolo se, do ponto de vista desportivo, ele for um flop. Temos que esquecer o mundo do futebol e falarmos numa linguagem empresarial: o clube comprou, tem de rentabilizar o investimento desde o primeiro dia. A partir dessa aquisição olhamos para João Félix como um produto do clube. Essa pressão [de apresentar dividendos] é imediata e vai acontecer desde o primeiro momento.”

Também Jorge Silvério, especialista em psicologia do desporto e psicólogo da selecção nacional de futsal, reconhece ao PÚBLICO o peso de uma eventual transferência recordista, mas destaca a existência de alguns aspectos que ajudam o jogador: “Penso que sim, haverá essa pressão, embora existam também factores protectores. Por um lado, cada vez mais, os grandes clubes olham o jogador como um todo. O João Félix está habituado a trabalhar do ponto de vista psicológico e mental. O apoio da família também é fundamental. Na ocasião da homenagem em Viseu, o pai falou e mencionou exactamente isso, a questão do apoio familiar e de ele estar bem enquadrado desse ponto de vista. Mas mesmo este grande investimento pode acabar também por funcionar como factor protector: se o clube está a gastar tanto dinheiro, é óbvio que fará todos os possíveis para que esta aposta seja rentabilizada.”

Uma eventual quebra de rendimento nas primeiras partidas será algo que poderá vir a acontecer, mas Jorge Silvério garante que o futuro clube terá de estar preparado para isso.

“Estamos a falar de um jogador que mudará de país, de cultura, de sistema táctico. É normal que exista um período de adaptação. Nenhum ser humano consegue fazer tudo de forma perfeita e estar sempre ao nível máximo. E é importante que, quando houver essa quebra de rendimento ou, pelo menos, um rendimento aquém do esperado em função dos montantes envolvidos, o próprio jogador ou quem o rodeia saiba que isso é normal, e é uma fase importante do crescimento do próprio enquanto atleta e enquanto pessoa”, remata o psicólogo.

Renato Sanches? “Questão cultural é muito diferente”

Uma análise aos contornos da iminente transferência de João Félix poderá trazer à memória semblantes da saída precoce de Renato Sanches do Benfica, em 2016. O jovem médio, então com 18 anos, fez uma época promissora ao serviço dos “encarnados”, completada com a conquista do Euro 2016 com a camisola da selecção nacional. O Bayern Munique, confiante no potencial do internacional, ofereceu 35 milhões pelo passe do médio ao emblema da Luz, mas, na Alemanha, o rendimento não foi o esperado. Na primeira época, falhou a afirmação no plantel bávaro, não assinando qualquer golo nas 25 ocasiões em que foi utilizado.

“A questão cultural é muito diferente. Temos muita proximidade com os espanhóis, um povo latino, ibérico. Ao contrário da espanhola, a cultura alemã é muito distinta. A própria língua não é imediatamente acessível, ao contrário do castelhano, por exemplo. Acho que esses aspectos, para um jovem muito acompanhado em Portugal, podem ter pesado. Se esse factor tivesse sido salvaguardado, até era muito mais fácil entrar no tipo de jogo do Bayern Munique”, explica Duarte Araújo, professor de Psicologia do Desporto na Faculdade de Motricidade Humana da Universidade de Lisboa.

O especialista diz que a atenção de João Félix deverá estar exclusivamente centrada nos aspectos que consegue controlar directamente, estabelecendo objectivos realistas: “Ele tem de gerir as expectativas para aquilo que controla. Os jogadores são muito sensíveis ao seu desempenho, isso é indiscutível. Mas ele não controla o resultado, ou o que se possa dizer dele. A robustez maior que ele possa ter neste processo vai estar relacionada com as características oscilatórias do seu desempenho. Quanto mais trabalhar para jogar melhor, mais robusto será [na reacção a esses factores extra jogo].”

"Transferência de Ronaldo para o Real não é comparável"

Há exactamente uma década, em 2009, eram os valores de Cristiano Ronaldo que faziam manchetes internacionais: por 94 milhões de euros, o campeão europeu trocava o Manchester United pelo Real Madrid, naquela que era, à data, a transferência mais cara de sempre do futebol mundial. Uma verba que, mesmo para a dimensão que o jogador de 24 anos assumia, era vista por muitos como exagerada.

Dez anos volvidos, João Félix sairá do Benfica por um valor superior, o que poderá levar à seguinte pergunta: existirá uma bolha especulativa no futebol?

“Acho que há uma bolha, claramente, mas temos de entender que o futebol europeu gerou, no último ano, receitas de 28 mil milhões de euros. É um sector de actividade que movimenta muito dinheiro. A transferência do Ronaldo do United para o Real não pode ser totalmente comparada com esta do João Félix porque o futebol mudou muito. Onde a bolha está — e os americanos já perceberam isto — é nos tectos salariais e transferências. Muitas destas receitas vão parar a meia-dúzia de atletas e de empresários, em vez de ser redistribuída”, lamenta Daniel Sá.

O especialista em marketing diz que a tenra idade, “boa imagem” e aparente “timidez” de Félix podem apelar a um público mais adolescente e aproximar um sector que, normalmente, se encontra mais afastado do desporto-rei. “O clube também avalia os traços de personalidade e, em teoria, tem tudo para dar certo, desde que, no relvado, tudo corra bem”, finaliza o director-executivo do IPAM.