Opinião

Podemos ignorar o envelhecimento e a incidência de cancro e demências?

Se o argumento da dignidade no final da vida não convence, convencerá o argumento dos custos que este cenário acarreta, em cuidados de saúde e de segurança social?

O mau da vida apanha-nos sempre de surpresa, é inevitável. Mas é bom fazer alguns planos, porque neste momento não há garantia de qualidade de vida na reta final – que pode ser longa –, nem para cada um nem para a família que o acompanha. E o país deveria estar preparado para o que isso pode significar em termos sociais e económicos. Mas não está. A informação, contudo, está aí, ninguém pode negar.

O mundo está a tornar-se velho e uma das razões para tal é o aumento da esperança média de vida. Portugal contribui para essa realidade. A esperança de vida à nascença dos portugueses tem crescido de forma espetacular. Se em 1970, segundo o INE, poderíamos esperar viver até aos 67, uma criança nascida em 2017 tem a esperança de viver até quase aos 80 anos. As projeções apresentadas no Ageing Report 2018 apontam para a manutenção da tendência, com os homens a atingir em 2070 uma esperança de vida à nascença de quase 86 anos e as mulheres a ultrapassar os 90. São dados impressionantes, de uma sociedade que usufrui de melhores condições de saúde pública, melhores condições de apoio à saúde (apesar da degradação nacional recente), melhor educação, acesso a avanços tecnológicos formidáveis, e do posicionamento numa zona do globo que tem conseguido preservar a paz. Mas a pergunta que urge é: as pessoas que têm a sorte de cumprir essa esperança de vida, com que qualidade irão passar os anos que se estendem por quase um terço mais da sua vida?

A sociedade envelhece também porque a população não está a crescer, e, aqui, as baixas taxas de natalidade persistentes em Portugal têm um papel fulcral. Dos 10,3 milhões de portugueses passaremos para nove milhões e meio em 2050 e oito milhões em 2070. A força de trabalho nacional (dos 15-64 anos) passará dos quase cinco milhões em 2020 para pouco mais de três milhões em 2070. Muito embora vários possam vir a estender a sua vida profissional ativa bem além dos 65, o potencial impacto do envelhecimento e quebra da população, sem mais medidas, antevê-se, como imaginarão, muito complicado na economia e sociedade portuguesa.

A par destes números, juntemos duas realidades duras. O World Alzheimer Report 2018 estima que o número de pessoas com demência irá triplicar no mundo, para 152 milhões em 2050. Não há país no mundo que esteja preparado para esta realidade avassaladora. Mas alguns já estão a trilhar passos seguros, porque não ignoram a informação demográfica e as estimativas de saúde, que são do domínio público. O número de pessoas com cancro, em todas as faixas etárias, é crescente (vejam-se os dados do Global Burden of Disease). Segundo a Organização Mundial de Saúde, em 2018 foram 18,1 milhões os novos casos de cancro no mundo, um número crescente relacionado não só com o aumento da população e o seu envelhecimento, mas também com uma mudança nas causas – de cancros associados à pobreza e infeções para cancros associados ao estilo de vida.

Ora, como vai ser viver mais e com mais doenças? Sendo pouco provável que aumente o investimento em lares e que o dirigido para os hospitais públicos redunde em capacidade suficiente, e sendo cada vez mais evidente que os cuidados de saúde tenderão a acontecer em casa, o que estamos nós a fazer, como país, para preparar esse caminho? Se o argumento da dignidade no final da vida não convence, convencerá o argumento dos custos que este cenário acarreta, em cuidados de saúde e de segurança social? E o que significará para o país a luta que as famílias de qualquer estrato social e de rendimento travarão para cuidar dos seus (exceto as muito ricas, as únicas a conseguir pagar aos melhores privados), que podem redundar num abandono precoce da vida ativa, ou na manutenção da mesma com baixos níveis de produtividade?