Para Naomi Campbell, vencedora do prémio Fashion Icon, diversidade racial não deve ser só tendência

Considerada uma das cinco grandes supermodelos do início dos anos 1990, a britânica falou à Reuters sobre as mudanças na indústria da moda.

Naomi campbell
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Reuters/Hannah McKay

A modelo britânica Naomi Campbell vai ser homenageada na edição deste ano dos Fashion Awards com o prémio Fashion Icon Award (em português, ícone da moda), pela sua contribuição para a indústria e pelo seu papel de activista em causas relacionadas com o continente africano. A cerimónia está marcada para o dia 2 de Dezembro no Royal Albert Hall, em Londres.

O evento, organizado pelo British Fashion Council (BFC), tem o objectivo também de angariar fundos que revertem em iniciativas para a indústria, como o apoio de estilistas. No ano passado, a organização arrecadou mais de 2,3 milhões de libras.

“É muito emocionante receber este prémio. Apesar de passar a maior parte da minha vida em diferentes partes do mundo, acho que as pessoas às vezes se esquecem que eu sou de Brixton: Eu sou uma rapariga do sul de Londres”, disse numa conferência de imprensa citada pelo The Guardian.

Naomi Campbell é um dos rostos mais reconhecidos do mundo da moda e já há muito que fala sobre a discriminação na indústria para a qual trabalha há 33 anos. “A diversidade racial na moda aumentou nos últimos anos, mas a indústria não pode tratá-la como uma tendência”, disse a modelo britânica em entrevista à Reuters.

A britânica de 49 anos foi a primeira modelo negra a ser capa da revista Vogue francesa e da Time Magazine. Foi também a primeira a aparecer na capa da edição de Setembro da Vogue norte-americana. 

Campbell reconhece que a indústria onde trabalha mudou, mas teme que seja apenas uma tendência. “Finalmente [a diversidade] parece ter sido absorvida, mas agora esperamos que não seja apenas uma tendência, como as roupas que estão na moda durante uma estação, e fora de moda na outra, isso não pode acontecer.”

“Melhorou muito, não posso dizer que não melhorou. Eu acho que há espaço para melhorar ainda mais (...) Há ainda muito para fazer”, acrescenta quando questionada sobre a igualdade salarial.

Campbell começou a sua carreira na adolescência e trabalhou para grandes nomes, como Versace, Chanel, Prada, Dolce & Gabbana, entre muitos outros. Também apoiou designers africanos e co-produziu o April's Arise Fashion Week em Lagos, na Nigéria. Relativamente ao reconhecimento dos designers africanos, a modelo diz: “Estamos a caminho, mas ainda não chegámos.”

No que toca às marcas que estão a melhorar as suas credenciais ecológicas à medida que cresce a consciência ambiental, Campbell refere que a maioria das marcas está “muito consciente da sustentabilidade”. “Sinto que todos estão conscientes e a tentar fazer a sua parte. É incrível, agora quando vamos para o set fazer uma sessão fotográfica, tem de ser uma sessão fotográfica sem plástico”, testemunha.

Naomi Campbell é considerada uma das cinco grandes supermodelos do início dos anos 1990, e foi capa de mais de 500 revistas. No entanto, segundo a Vogue britânica deste mês, só recentemente começou a sentir-se mais à vontade na sua própria pele. “Só porque sou modelo não significa que me sinta confortável”, disse à Reuters. “Se vestisse algo muito justo ao corpo e tivesse de sair e apanhar um táxi em Nova Iorque, colocava um casaco à cintura porque me sentia um pouco constrangida.”

Em 2005, Campbell fundou a Fashion For Relief que organiza desfiles para angariar fundos para causas que incluíram as vítimas do furacão Katrina e do tufão Haiyan. As suas acções filantrópicas começaram com o falecido presidente sul-africano Nelson Mandela, que se referiu a ela como “neta honorária”. Questionada sobre a iminente saída da Grã-Bretanha da União Europeia e do seu impacto na indústria da moda do país, Campbell, nascida em Londres, avalia: “Como o Brexit vai afectar o país como um todo é o que me interessa.”

Apesar da idade, a profissional espera continuar a ter oportunidades no mundo da moda. “Quando as pessoas me falam em ‘global’, pergunto se África está incluída e se me dizem que não, então não estamos a falar em globalização. Se for para entrar em espaços que, por norma, não estão contemplados, então, podem contar comigo na indústria da moda”, conclui.