Opinião

O algoritmo da indignação

Se o Estado retomou 50% do capital social da empresa a TAP tem que ter em devida conta os interesses nacionais.

Nas redes sociais estamos todos sujeitos a um algoritmo secreto, que categoriza os nossos padrões de comportamento para determinar a visualização de publicações. Nada é aleatório e os nossos gostos, interesses e curiosidade cibernética contribuem para uma estranha limitação do mundo virtual que nos é apresentado. No mundo real não é muito diferente. Por isso, mais do que o algoritmo do Facebook, gostaria era de conseguir descodificar o algoritmo da indignação pública. O que determina que a mesma empresa cause polémica sobre um tema, enquanto outro não mexe com a opinião pública? Vejamos a TAP: o caso dos prémios dos gestores da TAP causou tanta celeuma, ao passo que o comportamento sistemático da mesma TAP face à Madeira somente cria notas de rodapé a nível nacional.

A realidade nua e crua é que quatro décadas de democracia e autonomia ainda não cimentaram plenamente no todo nacional o conceito da continuidade territorial. António Costa foi instado a reagir ao caso dos prémios de 1,1 milhões de euros na TAP, esquecendo-se que a forma como definiu esse caso teria sido socialmente mais justo se também o tivesse aplicado ao caso da Madeira. O primeiro-ministro disse que distribuir prémios de desempenho era incompatível com os “padrões de sobriedade” das empresas participadas pelo Estado.

Contudo, se o Estado retomou 50% do capital social da empresa a TAP tem que ter em devida conta os interesses nacionais, tal como a continuidade territorial. Caso contrário, a reversão da privatização é uma inutilidade total.

Na comissão de inquérito na Assembleia Legislativa da Madeira, Antonoaldo Neves, o presidente executivo da TAP, disse que “a TAP ama a Madeira”. Só pode ser um caso de amor através do castigo. Quando confrontado com os preços astronómicos cobrados pela companhia nas ligações entre a Madeira e o Continente, ignorou que como residentes nós não saímos da Madeira só por férias com datas flexíveis. No dia-a-dia, tarifas de 500 e 600 euros simplesmente não são “módicas” como diz a TAP. Recorde-se que desde 2015 a TAP passou a lucrar, no mínimo, 21 milhões de euros nas ligações com a Madeira – assim percebe-se melhor o “amor” da TAP com a Madeira, certamente não correspondido pela população.

A TAP também se esconde atrás dos fenómenos meteorológicos para justificar “cancelamentos operacionais”, não fazendo jus às suas responsabilidades como transportadora aérea no apoio dado aos seus passageiros. Os inúmeros madeirenses abandonados à sua sorte às 4:30 da manhã no Aeroporto de Lisboa devido a estes cancelamentos, recebendo somente a informação que devem procurar sozinhos um quarto de hotel, são casos que demasiados cidadãos conhecem bem de mais. Estas não são ocorrências esporádicas e a sua frequência deveria também indignar a opinião pública

O caso mais recente prende-se com o anunciado fim da tarifa especial do desporto para as regiões autónomas. Esta tarifa da TAP existia para garantir que os desportistas regionais possam participar nas competições nacionais. É uma medida também ela filha do 25 de abril e das conquistas da autonomia.

Acabar com esta taxa é uma machadada para o desporto nacional, para os profissionais e para os jovens – do Continente e da Madeira. Nas modalidades mais diversas, os escalões jovens deixam de poder competir a nível nacional, sendo-lhes amputados o seu pleno potencial de desenvolvimento desportivo. Estamos por isso, na iminência de um enorme retrocesso!

Recorde-se o Art. 229.º da Constituição da República: “os órgãos de soberania asseguram, em cooperação com os órgãos de governo próprio, o desenvolvimento económico e social das regiões autónomas, visando, em especial a correção das desigualdades derivadas da insularidade”. Foi esse o objetivo da missiva do Presidente do Governo Regional da Madeira, ao se dirigir ao Primeiro-Ministro, no sentido de unir esforços institucionais para evitar o fim da tarifa especial do desporto.

Resta saber se o algoritmo de António Costa só reage à indignação massificada ou se finalmente se pronuncia sobre a população madeirense que é sistematicamente discriminada pela transportadora aérea nacional.