Etiópia: um golpe falhado num país tumultuoso

A tentativa de golpe de sábado à noite é reflexo de um país sob tensão étnica e política. O cérebro dos ataques, que foi morto pela polícia, tinha sido amnistiado pelo primeiro-ministro. O procurador que estava ferido morreu no hospital.

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Vítimas dos ataques foram destacadas na imprensa etíope Reuters/TIKSA NEGERI

O general Asaminew Tsige foi morto a tiro pelas forças de segurança do estado de Amhara, na área de Zenzelma, perto de Bahir Dar, a capital estadual onde, no sábado, o presidente do governo regional, Ambachew Mekonnen, e um seu assessor, Azeze Wasse, também foram assassinados. O procurador-geral regional, Migbaru Kebede, que ficou ferido no ataque, acabou por morrer esta segunda-feira.

Mais de 300 km a sul, na capital etíope, Adis Abeba, acontecia simultaneamente outro ataque: o chefe do Estado-Maior do Exército, general Seare Mekonnen, era assassinado em casa pelo seu guarda-costas, juntamente com o general na reforma Gezai Abera.

Uma acção concertada que levou o gabinete do primeiro-ministro, Abiy Ahmed, a falar numa tentativa falhada de golpe de Estado orquestrada pelo general Asaminew, um militar de etnia amhara libertado numa amnistia declarada por Abiy, quando este chegou ao poder, em Abril de 2018.

“Confirma-se que foi uma tentativa de golpe de Estado”, afirmou o comissário-geral da polícia Federal, Endeshaw Tasew, citado pela imprensa etíope.

Asaminew, que alegadamente sofreu torturas nos anos em que esteve preso por tentativa de golpe de Estado e perdeu a visão num dos olhos, recuperou o seu posto e a carreira e servia agora como chefe de segurança do estado. Ao mesmo tempo, recuperara a vontade de tomar o poder em Amhara e armar a milícia para combater outros grupos étnicos.

Os acontecimentos teriam sido precipitados por um vídeo que circulou nas redes sociais, onde o general Asaminew surgia a aconselhar os amharas a pegar em armas para lutar contra outros grupos étnicos no país. Isso teria sido a gota de água e o governo estadual, aparentemente, preparava-se para o remover do seu cargo. Aliás, o presidente do governo regional, o seu assessor e o procurador estavam reunidos para discutir o tema quando foram assassinados.

Desde sábado à noite que Asaminew andava fugido da polícia, junto com alguns dos seus seguidores. O guarda-costas que matou os generais em Adis Abeba ou se matou, de acordo com Endeshaw, ou acabou preso, de acordo com a versão do gabinete do primeiro-ministro.

Milhões de deslocados

O mais antigo país de África e o segundo mais populoso do continente é também aquele com mais população deslocada internamente por causa de conflitos. Mais do que a Síria e a Somália, cujos conflitos chamam habitualmente a atenção dos media, os 2,9 milhões de deslocados de 2018 na Etiópia representam mais de um quarto do total.

País de 102,5 milhões de habitantes e 80 tribos, sendo os Amhara o segundo maior grupo étnico (26,9% da população), a Etiópia tem sofrido nos últimos anos um aumento da tensão interétnica, que se reflecte no aumento substancial de deslocados de 2017 para 2018, quatro vezes mais, de acordo com o relatório global do Centro de Monitorização de Deslocamento Interno, com sede em Genebra.

Além disso, está em curso a transição de um regime autoritário para uma democracia, com muitas reformas a nível das chefias militares e de segurança que granjearam ao primeiro-ministro muitos e poderosos inimigos.

Quando assumiu o cargo, Abiy herdou um país com muitas facções em guerra, insurreição pública e um número crescente de conflitos armados, que levaram à queda da Frente de Libertação do Povo Tigré, no poder desde 1991.

O primeiro-ministro assumiu políticas reformistas, aliadas a uma tentativa de pacificação de partidos e milícias, muitos deles actuando desde o exterior do país. Procurou o apoio dos anciãos para resolver disputas e conflitos, sobretudo sobre terras, e fomentou um programa de regresso das populações deslocadas. E conseguiu estabelecer a paz com a Eritreia, país que conseguiu a independência da Etiópia em 1993, depois de uma guerra que durou 30 anos.

União Europeia e Estados Unidos sublinharam o seu apoio às reformas políticas e económicas em curso no país nas suas declarações de condenação da tentativa de golpe de Estado. “A UE reitera de forma firme a necessidade de continuar as reformas pacíficas e democráticas na Etiópia e o seu apoio aos esforços do primeiro-ministro e do seu Governo neste contexto”, disse Bruxelas.

Caminho reformista que, para Washington, “representa o caminho mais seguro para a prosperidade, inclusão política e estabilidade” na Etiópia.