São proibidos, mas os copos descartáveis continuam nas Festas de Lisboa

Câmara de Lisboa decretou que em 2019 não podia haver copos descartáveis e que, no próximo ano, também não pode haver pratos e talheres de plástico de uma só utilização.

M. Night Shyamalan
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pedro cunha

Sexta-feira, 14 de Junho. O Santo António já se acabou mas a festa prossegue um pouco por toda a cidade. No pequeno Largo de São Vicente acumula-se uma multidão à espera do nome maior do cartaz dessa noite: Ruth Marlene, que virá fazer uma espécie de best of intercalado com alguns temas mais recentes.

Enquanto a artista não chega, abastece-se o corpo de bebida. Em algumas bancas os vendedores apresentam um copo de plástico mais resistente, explicam que custa um euro e que, mediante a devolução do copo e de uma moedinha falsa, o euro volta para a carteira do consumidor. Mas isso não acontece em todas as barraquinhas: a escassos metros há foliões que recebem as suas bebidas em copos descartáveis.

Não é caso único. Na noite anterior, no Largo da Graça, diversas bancas também estavam a vender cerveja em copos de uma só utilização; na Alameda, este fim-de-semana, igualmente durante um concerto de Ruth Marlene, o cenário era idêntico. E o PÚBLICO ainda testemunhou que não é muito difícil encontrar arraiais, em vários sítios da cidade, onde as bebidas estão à venda em copos descartáveis.

Acontece que, a partir deste ano, os copos de plástico descartável estão proibidos nas Festas de Lisboa. Segundo o despacho que regula as “condições de realização dos arraiais de Lisboa”, publicado em Dezembro de 2018 no Boletim Municipal, “as entidades organizadoras dos arraiais populares são obrigadas a garantir a) em 2019, a não utilização de copos de plástico descartável e b) em 2020, a não utilização de copos, pratos e talheres de plástico descartável”.

De entre os muitos arraiais e retiros populares que se realizam durante o mês de Junho, 19 são directamente subsidiados pela câmara de Lisboa através da EGEAC, a empresa municipal responsável pelas Festas. Nesses arraiais “foi estipulado o uso de copos reutilizáveis”, ficando o modelo de gestão à escolha de cada organizador, explica fonte oficial daquela empresa. Nos outros, apesar de a EGEAC não ter qualquer influência, “o regulamento tem de ser cumprido em qualquer caso”.

O arraial que esteve montado nos largos de São Vicente e da Graça foi organizado pela Junta de Freguesia de São Vicente e não teve apoio da EGEAC. Um responsável pelo evento, que durou dez dias e atraiu milhares de pessoas, explicou ao PÚBLICO que a autarquia mandou fazer 35 mil copos reutilizáveis, o que se revelou insuficiente para a elevadíssima procura. Por isso é que, entre os 60 feirantes, muitos houve que recorreram ao clássico copo descartável.

À semelhança de outras entidades, a junta de São Vicente contratou uma empresa de logística para produzir, distribuir, armazenar, lavar e devolver os copos reutilizáveis. Cada copo custou 75 cêntimos à junta, mas chegou ao consumidor final com o preço de um euro para que os feirantes, com um lucro de 25 cêntimos por copo, se sentissem incentivados a vendê-los em vez dos descartáveis. O que, ainda assim, não evitou a resistência de diversos vendedores, que se queixaram do tempo perdido a explicar o sistema de entrega e devolução.

Nos arraiais apoiados pela EGEAC foi a cerveja Sagres, principal patrocinadora das Festas, que se encarregou de produzir e distribuir os copos reutilizáveis. “Esses copos não têm o logótipo das juntas, mas da Sagres. Recomendamos a todos os operadores que cobrem um euro, devolvendo-o no fim, e que troquem de copo sempre que a pessoa pedir uma bebida nova”, diz Nuno Pinto de Magalhães, director de comunicação da marca.

“Neste momento ainda não temos os números fechados. Vamos aguardar pelo encerramento das Festas, no final de Junho, para contabilizar efectivamente os copos disponibilizados”, explica, por sua vez, a EGEAC.

Além dos arraiais apoiados pela empresa municipal, a Sagres fez ainda acordos comerciais com juntas de freguesia e outros arraiais para fornecimento de cerveja, o que, nalguns casos, significou também a disponibilização de copos. “O copo reutilizável não é um negócio”, diz Nuno Pinto de Magalhães.

A venda de cerveja e a exposição obtida pela marca durante os dias de festa ultrapassam largamente a despesa feita em copos. Mas, apesar da aposta, nas cinco freguesias do centro histórico (S. Maria Maior, S. Vicente, Sto. António, Misericórdia e Estrela), a Sagres contratou uma empresa privada para ajudar os serviços de higiene urbana e ainda concedeu apoios financeiros a instituições (escuteiros, por exemplo) que se responsabilizassem pela recolha de copos descartáveis.

Sejam ou não apoiados pela EGEAC, os arraiais têm liberdade para escolher o modelo que preferirem na gestão dos copos reutilizáveis: São Vicente só devolve o euro se o copo for acompanhado da tal moedinha falsa, mas outras festas há que basta entregar o copo, desde que tenha sido adquirido naquele local. Em vários arraiais os copos têm o logótipo da junta de freguesia ou da entidade que organiza, o que impossibilita a sua troca noutro sítio. O responsável de São Vicente comenta ao PÚBLICO que não veria com maus olhos que a EGEAC definisse um modelo único para todo a cidade.

A partir de 1 de Janeiro de 2020, a venda de plásticos descartáveis no espaço público vai ser proibida pela câmara de Lisboa.