Editorial

6,8%, a percentagem da maioria absoluta

São os 6,8% da taxa de desemprego que mais ajudam António Costa a aproximar-se da maioria absoluta.

Regressar a Dezembro de 1991 é regressar aos primeiros meses do governo de maioria absoluta de Cavaco Silva. Era presidente Mário Soares, que tinha sido eleito no início desse ano com quase 71% dos votos. O país vivia em modo turbo os efeitos da entrada na Comunidade Económica Europeia e nesse ano fundava-se a Autoeuropa. A RTP passava o último Inverno sozinha no panorama televisivo nacional e os jogos pululavam na emissão. Era o tempo da Roda da Sorte com Herman José e da primeira edição do Preço Certo. A um sábado, podíamos encontrar no alinhamento os sorteios da Lotaria Europeia, do Totoloto e os concursos tal Pai Tal Filho e Casa Cheia.

Também temos de regressar a Dezembro de 1991 para encontrar um número mais baixo de desempregados inscritos nos centros de emprego do que aquele que se regista hoje. 297 mil desempregados nesse ano, contra 305 mil, 28 anos depois. A taxa de desemprego, propriamente dita, situa-se nos 6,8% e é preciso recuar até 2004 para encontrar uma baixa.

Não vivemos certamente essa euforia que pautaria os anos da Expo, quando as elites e a população em geral achavam que tínhamos chegado “a uma nova normalidade rica e optimista e pensavam que a partir de então seria sempre assim, apenas um pouco melhor” como escreve Rui Tavares, na colecção Portugal, uma retrospectiva.

A falta de médicos no SNS ou de comboios na CP, a memória recente do resgate financeiro, ou o desfiar das misérias dos nossos bancos, estão aí para nos lembrar a dimensão das nossas limitações. Mas 6,8% de desemprego fala muito alto quando pensamos no impacto que ter um emprego representa para a confiança e auto-estima de cada um.

É verdade que o número do desemprego tem vindo a cair anualmente desde 2014, é verdade que a oferta de emprego existe graças sobretudo a sectores como do imobiliário, alojamento e restauração, o que mostra que ela se deve mais ao boom do turismo do que a qualquer acção governativa. Mas os portugueses olham e quem está ao leme é António Costa.

As discussões em torno da Lei de Bases da Saúde, as relações com os partidos de esquerda, o diálogo com o PSD, a sintonia ou não com Marcelo, o empenho na resolução dos problemas dos serviços públicos, as promessas à Função Pública, podem encher noticiários e comentários e certamente ajudarão a posicionar eleitoralmente o PS. Mas são estes 6,8% que mais ajudam António Costa a aproximar-se da maioria absoluta.