Irão divulga novo mapa do drone abatido em busca de apoio internacional

Governo do país reafirma que o aparelho violou o seu espaço aéreo e promete uma “resposta firme contra qualquer agressão ou ameaça”. Reunião sobre o acordo nuclear, na próxima semana, pode servir para pressionar países europeus a pedirem diálogo.

Os restos do drone dos EUA abatido pelo Irão
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Os restos do drone dos EUA abatido pelo Irão TASNIM NEWS AGENCY/Reuters

O ministro dos Negócios Estrangeiros do Irão, Javad Zarif, divulgou este sábado um novo mapa com trajectórias e coordenadas para reafirmar que o drone norte-americano abatido na quinta-feira pelas forças iranianas violou o espaço aéreo do país. A poucos dias de uma importante reunião com a União Europeia para avaliar o futuro do acordo sobre o programa nuclear iraniano, Teerão deixa também um aviso aos EUA, prometendo “uma resposta firme contra qualquer agressão ou ameaça”.

O mapa, partilhado por Zarif na rede social Twitter, mostra o drone a sair de uma base norte-americana nos Emirados Árabes Unidos e a seguir para Norte, em direcção ao estreito de Ormuz, ao largo da costa iraniana. Já na viagem de regresso, no Golfo de Omã, é abatido assim que entra em águas territoriais do Irão e depois de pelo menos três avisos, segundo a versão iraniana.

“Não pode haver dúvidas sobre a localização do drone quando foi abatido”, disse o ministro Javad Zarif.

Os EUA continuam a afirmar que o drone foi abatido em águas internacionais. Na noite de quinta-feira, o Pentágono divulgou um mapa em que o trajecto do drone é identificado, de forma errada, como sendo o ponto de impacto, e acompanhado de um vídeo da queda do aparelho sem informações adicionais sobre a sua localização.

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Imagem de um vídeo divulgado pelo Pentágono sobre o abate do drone Departamento de Defesa EUA

"Obliteração nunca vista"

Questionado sobre a decisão do Presidente norte-americano de recuar num plano de ataque contra alvos no Irão, na sexta-feira, um porta-voz do Ministério dos Negócios Estrangeiros iraniano disse este sábado que o país não é influenciado “pelas decisões das autoridades norte-americanas”.

“Não permitiremos que o território da República Islâmica seja violado”, disse Abbas Mousavi à agência de notícias Tasnim.

Na sexta-feira, depois de ter cancelado uma ordem de ataque contra três alvos iranianos, o Presidente dos EUA foi ao canal NBC dar mais explicações sobre o episódio que podia ter deixado os dois países à beira de um confronto militar.

Segundo Donald Trump, e ao contrário do que foi noticiado na sexta-feira, os aviões norte-americanos ainda não estavam no ar quando a ordem foi dada. “Mas iam levantar voo daí a pouco, e depois já não havia forma de voltar atrás”, disse Trump, antes de ameaçar o Irão com “uma obliteração nunca vista" em caso de ataque.

Os principais jornais norte-americanos continuam a reconstituir aquelas horas entre o abate do drone pelo Irão e a suspensão do ataque pelos EUA, entre a manhã e a noite de quinta-feira.

Segundo o jornal New York Times, o Presidente norte-americano foi incentivado a atacar o Irão pelo seu conselheiro de Segurança Nacional, John Bolton, conhecido por defender uma mudança de regime no país. Do outro lado, o chefe das Forças Armadas, o general Joseph Dunford, terá alertado Trump para as possíveis consequências de um ataque, tanto para as forças norte-americanas na região como para os países aliados dos EUA.

No final, terá pesado mais outra luta de interesses contraditórios, neste caso na cabeça do próprio Presidente norte-americano: por um lado, a sua vontade de responder em força a qualquer provocação; por outro lado, a sua promessa eleitoral de manter os EUA longe de uma nova guerra, com resultados semelhantes ao que aconteceu no Iraque e no Afeganistão.

Salvar o acordo

O clima de tensão tem vindo a subir desde que o Presidente norte-americano denunciou o acordo internacional sobre o programa nuclear iraniano, em 2015, temendo-se que uma resposta mal calculada arraste os EUA e o Irão para uma guerra.

Na próxima sexta-feira, representantes da União Europeia e dos países que se mantêm no acordo sobre o programa nuclear do Irão (Reino Unido, França, Alemanha, China e Rússia) vão encontrar-se com negociadores iranianos, em mais uma tentativa para minimizar as consequências das sanções norte-americanas na economia iraniana.

Para alguns observadores, como Mahjoob Zweiri, director do Centro de Estudos do Golfo na Universidade do Qatar, é nessas negociações que o Irão põe os olhos quando pressiona ou responde aos EUA.

“Eles querem que a comunidade internacional faça alguma coisa, que pressione os EUA a dialogarem, porque a situação actual está a fazer desmoronar a economia e isso terá sérias repercussões na estabilidade do regime iraniano”, disse Zweiri ao site da Al-Jazira.

Mas o especialista alerta também para os perigos deste jogo de interesses e pressões: “Todos os países vão pagar um preço se houver um confronto no Golfo. Acho que todos os países querem enfraquecer o Irão, mas não querem a guerra, porque o preço a pagar seria muito elevado.”