Opinião

O Douro não pode ser uma coutada de Mário Ferreira

Mário Ferreira gosta de dizer que hoje só se move por duas razões: ou por prazer ou por dinheiro. Pelos vistos, já não terá prazer com o Douro e agora só age por dinheiro.

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Mário Ferreira Paulo Pimenta

As grandes paisagens vinhateiras estão a converter-se em importantes destinos turísticos. A região do Douro, por exemplo, vive um boom turístico nunca visto, embora ainda muito assente nos cruzeiros fluviais.

O negócio fluvial é importante, mas deixa pouco dinheiro na região e tem grande impacto sobre o rio, o espaço público e os serviços de recolha de lixo e de saneamento básico, razão pela qual devia ser criada uma taxa turística para atenuar esses custos. Já nem falo em “subsidiar” o trabalho dos milhares de viticultores que mantêm a paisagem e com a qual os operadores conquistam os seus clientes. Falo apenas em pagar o básico.

Ninguém tem ganho mais dinheiro com o Douro do que Mário Ferreira, o dono da empresa Douro Azul. Tem feito por isso, diga-se, e, de certa forma, até merece que lhe tiremos o chapéu. A revista Exame dedicou-lhe recentemente 12 páginas e, a acreditar nos números que a revista e o próprio divulgaram, o empresário nortenho criou nos últimos 26 anos um pequeno império, centrado no negócio dos cruzeiros mas também com ramificações nos sectores da hotelaria e do imobiliário. Só a venda, já este ano, de 40% da sua holding dos cruzeiros, a Mystic Invest Holding, ao fundo americano Certares ter-lhe-á rendido 250 milhões de euros (175 milhões para reforçar os capitais da holding e 75 milhões para a conta de Mário Ferreira).

O recurso ao modo condicional tem uma explicação: quantas vezes já demos notícias de grandes negócios que, mais tarde, vimos a descobrir que não eram verdadeiros ou eram exagerados? Lembram-se das notícias que Mário Ferreira conseguiu plantar em tudo que era jornal, rádio e televisão em Portugal sobre a sua viagem espacial, onde levaria uma garrafa de vinho do Porto da Taylor`s? Nunca fez tal viagem, mas nunca ninguém lhe pediu contas por ter sido enganado. A ruína, financeira e moral, de muitos grandes empresários portugueses, elevados em dada altura a génios dos negócios, obriga-nos, portanto, a ser prudentes, até porque desconhecemos muitas vezes os caminhos que levam à criação de grandes fortunas.

Desde o início que Mário Ferreira tem associado um aguçado espírito empresarial a uma notória falta de humanidade e consciência social. O empresário, como dizia, tem ganho muito dinheiro com as belezas do Douro, mas que ninguém lhe fale em taxa turística – e os autarcas locais não ousam contrariá-lo. Estão cegos, porque, tirando meia dúzia de parceiros com quem Mário Ferreira, o seu negócio deixa muito pouco na região. Basta falar com os donos dos talhos, das mercearias, dos cafés, dos restaurantes, dos hotéis do Douro para se perceber que o negócio fluvial de Mário Ferreira – e dos outros grandes operadores – é unívoco. Funciona quase completamente circunscrito aos seus barcos e aos seus autocarros. O empresário controla quase toda a cadeia do negócio e deixa muito pouco para a economia local. E ai de quem o critique ou lhe faça frente! Mário Ferreira só sabe conviver com o elogio. Aos que se lhe opõem, responde duro e grosso e, tratando-se de poderes públicos, com chantagem, ameaçando cancelar ou deslocalizar investimentos.

A “guerra” que mantém com a Comissão de Coordenação da Região Norte sobre a sua pretensão de construir um hotel com campo de golfe na margem direita do Douro junto a Mesão Frio é exemplar da sua “fibra”. É um projecto absurdo, mas Mário Ferreira só irá desistir quando as autoridades públicas se curvarem (a Câmara local já se curvou há muito tempo). E fará o mesmo com o hotel que quer construir mesmo em cima da margem esquerda do Douro, em Gaia, junto à ponte D. Luiz, e que também tem sido chumbado uma e outra vez.

Mário Ferreira também não convive muito bem com a concorrência. São públicas as pressões que o empresário fez junto de várias instituições para impedir a entrada da Secnic Tours no negócio dos barcos-hotel no Douro. Sem sucesso, diga-se, mas com pesados custos mensais para a empresa australiana. E é também público o contrato leonino que o dono da Douro Azul conseguiu para a albufeira do Tua, onde possui a exclusividade da exploração fluvial. Como é possível alguém deter tal exclusivo numa albufeira pública?

Com Mário Ferreira não há impossíveis. No parque de estacionamento do cais da Brunheda, o centro da sua operação turística no vale do Tua – que inclui a exploração do ramal ferroviário que não foi inundado com a construção da barragem da EDP –, o empresário construiu um paredão em granito que é um verdadeiro atentado paisagístico. Quando soube desta obra, a Liga dos Amigos do Douro Património Mundial fez uma queixa junto da CCDR, pedindo o seu embargo. A CCDR deu-lhe razão e, recentemente, intimou o empresário a corrigir a obra. A resposta de Mário Ferreira foi a de sempre: criticar os técnicos da CCDR. Mais: recusa-se a pagar os custos da reposição/requalificação da paisagem original. Pelos vistos, serão as câmaras locais a assumir o encargo. Quem diz ter vendido 40% da sua holding por 250 milhões de euros tinha necessidade disto?

Armando Vara tinha um lema político, que diz ter herdado de Almeida Santos: “Aos amigos tudo, aos inimigos nada, aos restantes, cumpra-se a lei”. Mário Ferreira gosta de dizer que hoje só se move por duas razões: ou por prazer ou por dinheiro. Pelos vistos, já não terá prazer com o Douro e agora só age por dinheiro. De acordo com a cartilha capitalista pode ser um bom empresário, mas está longe de ser um empresário bom – e é de empresários bons, comprometidos e envolvidos com as populações locais, que regiões como o Douro precisam. Mas o dono da Douro Azul ainda está a tempo de mudar.