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FIFA pressiona Irão a aceitar mulheres nos estádios

Carta dirigida por Gianni Infantino à Federação iraniana pretende facilitar a abertura das portas dos recintos ao público feminino.

Irã
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Iranianas não podem assistir a partidas de futebol nos estádios Fadi Al-Assaad / REUTERS

Em Outubro de 2018, pela primeira vez em quase quatro décadas, um pequeno grupo de mulheres teve permissão para assistir a um jogo de futebol profissional num estádio iraniano, um particular entre o Irão e a Bolívia. Sem necessidade de disfarces, sem quebrar a lei, sem colocar em risco a sua liberdade. A “generosidade” do Governo iraniano parecia ser um primeiro passo numa decisão inevitável: a inclusão do público feminino no desporto-rei. Gianni Infantino, presidente da FIFA, chamou-lhe “um dia histórico”.

Menos de um ano depois, as mulheres continuam a ser barradas à entrada dos estádios, obrigadas a regressar à clandestinidade. Este retrocesso motivou Gianni Infantino a enviar uma carta ao presidente da Federação de Futebol da República Islâmica do Irão (FFRII), Medhi Taj. No documento, a FIFA diz que o regresso da proibição não está “de acordo com os compromissos assumidos pelo presidente Rouhani em Março de 2018”. Gianni Infantino recorda ao líder da FFRII que o governante “assegurou progressos importantes nesta matéria”.

Reconhecendo a existência de aspectos culturais “sensíveis”, Infantino sublinha que a organização que tutela tem a responsabilidade de garantir o cumprimento dos seus estatutos, nos quais se incluem a igualdade entre homens e mulheres. Na carta, datada de 18 de Junho, relembrou o jogo de preparação entre o Irão e a Síria no início deste mês, a propósito do qual “um número de mulheres que queriam assistir à partida foram detidas pelas autoridades iranianas” durante várias horas.

“Nestas circunstâncias ficaria grato se pudesse informar a FIFA, logo que possível mas até ao dia 15 de Julho de 2019, em relação aos passos concretos que a FFRII e as autoridades iranianas irão passar a dar para garantir que todas as mulheres — iranianas e estrangeiras — possam comprar bilhetes e assistir às partidas de qualificação para o Campeonato do Mundo do Qatar de 2022, que terão início em Setembro de 2019”, finaliza o presidente da FIFA.

Mulheres nos estádios? “Leva ao pecado"

Nas competições internacionais, o apoio das mulheres à selecção iraniana fora de portas é notório. No Mundial da Rússia, em 2018, vários cartazes nos estádios pediam ao Governo iraniano que anulasse a proibição da entrada de público feminino nos recintos desportivos. A pressão internacional fez com que, em Teerão, se abrissem as portas do Estádio Azadi para que homens e mulheres assistem à transmissão do jogo frente à Espanha.

Mas, ainda antes destas permissões pontuais, as mulheres encontravam maneira de frequentar os estádios de futebol iranianos. Apesar de a lei não o permitir — e acarretar sanções pesadas —, as adeptas disfarçavam-se de homens e procuravam furar a segurança apertada. Algumas partilharam nas redes sociais fotografias e vídeos dentro dos recintos desportivos.

“Se uma mulher vir homens meio despidos em trajes desportivos, levará ao pecado”, afirmaria o procurador Jafar Montazeri, um dia após a partida em que uma centena de mulheres conseguiu assistir ao jogo de carácter particular ente o Irão e a Bolívia. Os stewards que controlavam os estádios passaram a poder ser alvo de repercussões, caso se soubesse que permitiam a entrada de mulheres nos recintos.

Ainda antes de Gianni Infantino ter enviado a carta ao presidente da federação iraniana, a FIFA já tinha reconhecido o erro ao expulsar duas pessoas, no Mundial de futebol feminino, que envergaram t-shirts contra a proibição das mulheres iranianas nos estádios. Classificando o protesto como “mais social do que político”, a organização pediu desculpa pela atitude tomada pelos assistentes de recinto desportivo presentes no jogo entre o Canadá e a Nova Zelândia. 

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