Ordem dos Médicos e sindicato antecipam situação “dramática” com encerramento dos serviços de obstetrícia no Verão

O presidente da ARSLVT garante que as grávidas não vão andar de ambulância entre hospitais na região de Lisboa. A ministra da Saúde não quer, para já, prestar declarações.

Ordem dos Médicos
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Rui Gaudencio

O bastonário da Ordem dos Médicos Miguel Guimarães classificou o funcionamento em regime de rotatividade das urgências de obstetrícia de quatro dos maiores hospitais da Grande Lisboa durante o Verão como uma “situação dramática” e “muito complexa” que “pode ter consequências imprevisíveis”.

Em declarações à RTP, e reagindo à manchete do PÚBLICO desta quinta-feira, Miguel Guimarães aponta o dedo ao Governo: “Se o nosso Governo não tem capacidade para resolver esta situação temos um problema sério.”

A solução de abrir um regime de rotatividade durante os meses de verão – a partir da última semana de Julho até ao final de Setembro – foi avançada na quarta-feira pela Administração Regional de Saúde de Lisboa e Vale do Tejo (ARSLVT) numa reunião com os directores de serviço da Maternidade Alfredo da Costa, Hospital de Santa Maria, Hospital de São Francisco Xavier e Hospital Amadora-Sintra.

Para o bastonário da Ordem dos Médicos esta é “uma área sensível” e refere os médicos que “recebem casos muito complexos” e que precisam do “suporte adequado de áreas como cirurgia ou neonatologia”. “Não existe organização e planeamento adequado nesta matéria”, sentencia. “A solução para isto não é esta, é contratar as pessoas para o SNS.”

Como consequências previsíveis desta solução, Miguel Guimarães aponta a possibilidade do aumento da taxa de cesarianas “porque os médicos não conseguem atender várias grávidas ao mesmo tempo”, a falta de camas e o aumento das listas de espera.

“Temos dificuldades imensas em várias ocasiões, mas apesar de a Ministra da Saúde reconhecer que há dificuldades não há só dificuldades: há dificuldades sérias”, sublinha.

Já o presidente do Sindicato Independente dos Médicos, Roque da Cunha, congratula-se pelo facto de ter sido reconhecido um problema: “Isso é positivo”, disse à RTP. No entanto, salienta, o anúncio parece ter sido precipitado porque “não há acordo por parte dos directores do serviço” o que cria uma “perturbação ainda maior”.

“Todos os dias há dias de contingência, mas tem de haver tranquilidade e organização por parte do Ministério”, diz Roque da Cunha. Este anúncio “causa confusão” e “limita a capacidade de cuidados diferenciados”. “Não estando devidamente acauteladas todas estas questões” pode haver perigo para as grávidas, completa.

Administração Regional de Saúde de Lisboa e Vale do Tejo (ARSLVT) garante que grávidas não vão deambular entre hospitais

O presidente da Administração Regional de Saúde de Lisboa e Vale do Tejo (ARSLVT) garantiu que as grávidas não vão andar de ambulância entre hospitais na região de Lisboa, durante o Verão.

“O hospital que a gente diz como fechado, entre aspas, vai continuar a dar resposta à sua actividade programada. As senhoras vão continuar a ter lá os seus bebés em segurança e mesmo se houvesse uma urgência de uma pessoa que não viesse pelo CODU (Centro de Orientação de Doentes Urgentes) ou pelo INEM, teria a sua criança. Posso garantir que não vai haver grávidas de ambulância de hospitais para hospitais na região de Lisboa”, assegurou Luís Pisco à agência Lusa.

Em declarações à Lusa, Luís Pisco lembrou que o organismo está a reunir com os quatro hospitais para “concertar estratégias de forma a optimizar o serviço a prestar aos cidadãos”, ouvindo os conselhos de administração, os directores de serviço de pediatria e neonatologia, faltando ainda os anestesistas.

“É um trabalho que está a decorrer. Trata-se de uma situação complexa que envolve muitas pessoas, muitas equipas. Não é uma solução finalizada, ainda estamos a trabalhar nela, sendo que as reuniões vão continuar na próxima semana”, explicou.

Luís Pisco considerou também que as pessoas “têm a noção de que no Verão as situações em que já existem algumas dificuldades de acertar escalas aumentam”, nomeadamente por causa das férias.

“Aqui é uma tentativa de acertar antes que haja problemas. Estamos a trabalhar com os quatro grandes hospitais, que são de fim de linha, mas que não respondem só à região de Lisboa e Vale do Tejo mas também às situações mais graves de Alentejo e Algarve”, disse, frisando que se trata de “assegurar o melhor serviço possível”.

O PÚBLICO tentou obter uma reacção da ministra da Saúde, Marta Temido, mas para já fonte do gabinete de comunicação remete todas as declarações para a ARSLVT.