Opinião

A nossa condição, a passagem ao estado líquido

Na era digital e automática da convergência tecnológica, abrir a Caixa de Pandora ou esfregar a Lâmpada de Aladino pode ser uma operação de alto risco.

Tudo é volátil, efémero, precário, transitório, passageiro, instável, temporário, fluido, enfim, líquido.
Zygmunt Bauman

Volto a Zygmunt Bauman, um dos meus autores preferidos, para uma breve reflexão sobre a nossa condição, pois, enquanto professor, considero-me um observador privilegiado e a universidade um lugar de eleição para observar o curso da nossa condição, dos mais jovens, os nativos digitais, até aos menos jovens, digitalmente desajeitados, como eu. Recordo aqui as últimas posições de Zygmunt Bauman em matéria de cultura digital, redes sociais e movimentos sociais de protesto, sempre a pretexto da sua recorrente filosofia do quotidiano:

– As redes sociais são uma armadilha, tudo parece muito fácil na esfera virtual, mas perdemos a arte das relações sociais e da amizade;

– O velho limite sagrado entre o horário de trabalho e o tempo pessoal foi ultrapassado, estamos permanentemente disponíveis, esquecemos o tempo para o amor, a amizade e a solidariedade; hoje discute-se, mesmo, o “direito de desligar” fora das horas de trabalho;

– As comunidades online são um entretenimento barato, porém, é preciso confirmar e validar esse empenhamento na rua, no contacto com as pessoas e nas comunidades reais offline;

– A política é doméstica e está territorializada, o poder é global e extra-territorial; a democracia doméstica não convence, é pouco efetiva e é arrastada por esta crise do Estado-nação; neste sentido, as comunidades virtuais online também são extra-territoriais e não se identificam com as antigas comunidades reais offline;

– A cultura conectada é uma bricolage permanente, muitas vezes é uma verdadeira caricatura, o discurso público é retorica pura e o espaço público está muito fragmentado para ser representativo, eficaz e convincente.

Dito isto, porque é que investimos tanto em tecnologia, sistemas automáticos e inteligência artificial e tão pouco em relações humanas, inteligência emocional, sociabilidade e humanidade? No futuro próximo, cada vez mais híper-conectado, automatizado e virtualizado, onde ficam os direitos humanos e a arte das relações humanas, isto é, a humanidade?

A passagem ao estado líquido

No século XX o futuro estava inscrito na “lógica das coisas”, era, digamos, previsível e programável. No último quarto de século, porém, chegamos quase sempre tarde ao futuro. O futuro deixou de estar inscrito na lógica das coisas, não tem mecanismo de programação, corre sempre à nossa frente, tornou-se instável, fluído e virtualmente líquido. A vida tornou-se uma categoria líquida onde o processo se sobrepõe à forma, uma metáfora para o estado da nossa condição humana: tudo é volátil, efémero, precário, transitório, passageiro, instável, temporário, fluido, enfim, líquido. A passagem do conceito de ordem ou estrutura (sólido) para o conceito de rede ou conexão (líquida) dá bem conta dessa transição. E estas noções líquidas e fluidas são de aplicação em todas as áreas, desde as relações amorosas e familiares até às relações de poder nos campos da economia, da sociedade, da política e, obviamente, da revolução digital.

O imaginário social da transformação digital

O imaginário social da transformação tecnológica e digital é um excelente campo de observação no que diz respeito a este “tempo do futuro”. A cada tecnologia estão, quase sempre, associados uma promessa, uma curiosidade e um mistério, isto é, um imaginário social que está configurado como se fosse uma linguagem ou semântica que precisa de ser descodificada. Neste contexto, a transformação digital é erigida como se fosse um mito indiscutível ou, até, um imperativo categórico para definir as escolhas de sociedade.

O tempo do futuro inscreve-se, portanto, neste imaginário social da transformação tecnológica e digital e, sobretudo, na sua declarada ambivalência e duplicidade que o associam muitas vezes a diversas referências mitológicas. Assim, onde está o utilitário está, também, o ficcional, onde está a liberdade está, também, a servidão voluntária, onde está uma grande promessa está, também, uma grande apreensão, onde está o individualismo está, também, uma grande dependência das redes sociais, onde está o paraíso tecnológico está, também, a violação da privacidade. Ambivalência e duplicidade que nos colocam em guarda e prevenção face ao futuro. Ou seja, a crise do futuro, mas, também, a esperança do futuro.

Em redor deste imaginário social configuram-se discursos muito variados e as representações dos protagonistas mais diversos. Desde logo as representações daqueles, os cientistas, que concebem a inovação em centros de investigação fundamental. Depois o governo e a administração pública, com os seus programas de políticas públicas e financiamentos. A seguir os grandes operadores, a comunicação empresarial e os serviços de publicidade e marketing. Depois os meios de comunicação social e os grandes eventos, mas, também, o universo das artes, da moda e da ciência-ficção. Por fim, os próprios utilizadores, em modo de servidão voluntária, vivendo uma espécie de embriaguez tecnológica e digital. Quer dizer, o imaginário social da cultura digital e o grande protagonismo dos conglomerados tecnológicos serviram para encobrir uma parte substancial das “dores” desta fase do capitalismo que alguns (Boutang, 2007) denominaram de capitalismo cognitivo.

Percursos de vida líquida

Num outro registo do imaginário social da cultura tecnológica e digital e no “tempo líquido” em que vivemos, a vida não é um projeto, mas, antes, uma série ou coleção de episódios. Tudo o que dávamos por adquirido está definitivamente posto em causa. Onde estavam as relações familiares e comunitárias, estão, agora, as conexões na rede. Tudo é descartável, tudo está em trânsito. É aqui que nos encontramos. De um lado, o entretenimento barato das comunidades online, a bricolage permanente das relações e as crises de atenção e impaciência perante o oceano de informação em que estamos mergulhados, do outro lado, a vida quotidiana onde a sensibilidade, a empatia e a felicidade são muito mais importantes do que a pureza teórica e a embriaguez tecnológica. Quer dizer, precisamos de tempo, muito tempo, para lidar e cuidar das impurezas e imperfeições das várias camadas da realidade.

A ética da condição humana e o mito da convergência tecnológica

O grande mito “NBIC” (nanotecnologia, biotecnologia, informática, ciências cognitivas) da convergência tecnológica parece disposto a provar que o ser humano é pura transição, uma máquina neuronal gigantesca onde o processo prevalece sobre a forma: do ser natural ao ser melhorado, do ser biónico e ao ser pós-humano. Neste contexto de convergência tecnológica, estaríamos disponíveis para alienar a nossa inteligência racional, em dispositivos exteriores, e a nossa inteligência emocional em redes sociais devidamente programadas e acondicionadas.

Na linha da convergência tecnológica, da sociedade automática e algorítmica da revolução digital, os indivíduos são considerados “agregados temporários de dados brutos”, quantificáveis e sucessivamente reconfigurados a uma escala industrial, se quisermos, uma espécie de coisificação dos indivíduos. Tudo fica indexado a um qualquer indicador quantitativo, para os fins da sociedade hipercompetitiva e performativa, de um “modelo extrativista” em que os cidadãos internautas, utilizadores de redes e plataformas, são produtores e fornecedores de uma gigantesca massa de informação pessoal, muita dela subliminar, num ambiente informacional vertiginoso e hipnótico, que tem tanto de benignidade como de toxicidade.

Nesta sociedade automática e da convergência tecnológica os algoritmos são uma espécie de próteses cognitivas, que provocam não apenas a exteriorização do saber, mas, também, a proletarização de muitas classes profissionais e intelectuais. A sociedade da convergência tecnológica é, portanto, uma sociedade altamente paradoxal com inúmeros conflitos políticos e societais a perfilarem-se no horizonte próximo.

Mas num universo cada vez mais automático e digital, qual é a ética prática que prevalece? A da inteligência artificial e da computação cognitiva ou a ética da humanidade, mesmo que já aumentada e melhorada?

E os novos direitos humanos na era digital da convergência tecnológica, quem traça os limites e onde? O direito a permanecer um humano não-aumentado, simplesmente, ou o direito a permanecer ineficiente e excluído, ou o direito a permanecer desligado fora do horário de trabalho, ou o direito de permanecer invisível face às câmaras de vigilância, ou o direito e o privilégio de trabalhar exclusivamente com humanos?

Notas Finais

Na era digital e automática da convergência tecnológica, abrir a Caixa de Pandora ou esfregar a Lâmpada de Aladino pode ser uma operação de alto risco. Cuidado, pois, com a armadilha do narcisismo digital. Não deixemos que a inteligência artificial tome conta da nossa inteligência racional, não deixemos que a arte emocional das relações humanas seja trocada pela caricatura de uma bricolage social, renovemos o princípio da precaução e a ética do cuidado, vivamos a vida ao quotidiano nas nossas comunidades offline e sempre que necessário acionemos o “direito de desligar”.

A sociedade automática e algorítmica da convergência tecnológica é, tudo leva a crer, uma nova estrutura de poder para gerir a incerteza e a insegurança, pública e privada, na era digital. Dado o lugar central ocupado pelo Big Data, tudo girará à volta da privacidade e da publicização dos dados pessoais. Em consequência, veremos emergir uma nova regulação política e jurisdicional e novas figuras e protagonistas: os reguladores, os cuidadores, os auditores, os procuradores do interesse público e privado em plena era digital. Todavia, como a inovação política e social corre muito mais lentamente há o risco de ficarmos prisioneiros da elevada “toxicidade da sociedade algorítmica”. Doravante, entre sensores vigilantes e censores furtivos, tudo pode acontecer, mesmo o absolutamente imponderável.

Ambivalência, duplicidade e representação, o futuro é a crise do futuro, mas é, sobretudo, a arte realista da esperança.

O autor escreve segundo o novo Acordo Ortográfico