Johnson ou Hunt, um deles vai liderar os tories e ser o primeiro-ministro do “Brexit”

O antigo ministro dos Negócios Estrangeiros conseguiu 160 votos de deputados, enquanto o actual chefe da diplomacia britânica passou à fase final por apenas dois votos - obteve 77. O próximo embate na sucessão de Theresa May será entre uma ala mais radical e uma mais “moderada” do Partido Conservador britânico.

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Boris Johnson e Jeremy Hunt vão agora a votos entre os 160 mil militantes conservadores Reuters/HANDOUT

Boris Johnson e Jeremy Hunt vão disputar a liderança do Partido Conservador e quem ganhar será o próximo primeiro-ministro do Governo de Sua Majestade. Agora é a vez dos cerca de 160 mil militantes tories escolherem, via voto por correspondência, quem querem à frente dos destinos do Reino Unido para cumprir a promessa de saída da União Europeia. Mas será também o ajuste de contas entre uma ala mais radical e uma mais “moderada”.

O novo líder deverá ser eleito até 22 de Julho, segundo o calendário disponibilizado pelo Comité 1922, grupo de deputados tories sem cargos no Governo e que estabelece e gere o processo eleitoral. O grupo parlamentar dos tories é composto por 313 deputados.

A corrida para a sucessão de Theresa May teve esta quinta-feira dois momentos eleitorais, a quarta e quinta votações. No último, ao final da tarde, Johnson conquistou 160 votos (+5), enquanto Hunt, ministro dos Negócios Estrangeiros de May, ficou bastante atrás, com 77 (+18). Já Michael Gove, ministro do Ambiente e que na votação anterior ficou em segundo lugar, foi eliminado ao ficar em terceiro com 75 votos (+ 14). Houve um voto nulo. Gove junta-se agora aos oito candidatos afastados, entre desistências e eliminações, da disputa pela liderança.

Entre a quarta e a quinta votação, os jogos de poder e influência nos corredores de Westminster não deram descanso. Em causa estava o resultado da primeira votação do dia e a saída de cena de Sajid Javid, ministro do Interior, e para que lado penderiam os 34 votos que recebeu – o próprio candidato garantiu à BBC que os seus votos se iriam “dividir por diferentes candidatos”. Nessa votação, Johnson foi mais uma vez o favorito, ao vencer com 157 votos, perto de metade dos votos do grupo parlamentar, e quase três vezes mais que Michael Gove (61).

Já Hunt foi ultrapassado e viu-se pela primeira vez em terceiro lugar com 59 votos – afirmar-se “moderado”, ao recusar uma saída da UE sem acordo não terá ajudado num partido cada vez mais radicalizado.

Esta foi a principal novidade do acto eleitoral, dando origem a especulação sobre se a disputa final pela liderança seria entre dois velhos inimigos – era suposto Gove ter apoiado Johnson na luta pela liderança conservadora em 2016, mas acabou ele próprio por avançar. Ao invés, será entre quem não hesita perante uma saída sem acordo e quem diz que essa não é a sua hipótese preferencial.

Desde o começo da disputa pela sucessão que Johnson tem estado consecutivamente à frente, contando com o apoio da ala mais radical a favor do “Brexit”. Johnson defende uma saída da União Europeia com ou sem acordo, prometendo cumprir com o resultado do referendo até 31 de Outubro, a nova data-limite para a saída do Reino Unido da UE.

Johnson diz acreditar ser possível um “Brexit ordeiro e controlado”, forçando para isso a mão para que Bruxelas abdique do controverso backstop com a Irlanda, mas se os 27 líderes europeus não o fizerem, então um divórcio sem acordo vai mesmo acontecer.

Esta linha agrada tanto à ala eurocéptica que o apoia na luta pela liderança como a uma parte significativa da base conservadora, ainda que tantos outros não o queiram ver de forma alguma à frente dos tories. Linha que tem pequenas grandes diferenças com a de Hunt: o chefe da diplomacia britânica diz querer negociar com Bruxelas para evitar um divórcio abrupto, mas que optará pela saída sem acordo se não tiver outra opção em cima da mesa. Diz que conseguirá um melhor acordo de Bruxelas.

Os líderes europeus já disseram e repetiram inúmeras vezes que o acordo alcançado entre Londres e Bruxelas não é negociável. May tentou, ainda assim, fazê-lo e não conseguiu. Independentemente de quem fique à frente dos tories, os problemas que levaram à queda de May permanecem, seja na aritmética parlamentar, em Bruxelas, ou as divisões no seio do Partido Conservador.