Associação Brasileira de Jornalismo condena declarações de Moro contra o The Intercept

“O Intercept alega que recebeu de uma fonte anónima mensagens privadas de Moro e de procuradores da Lava-Jato. Jornalistas e veículos não são responsáveis pela forma como a fonte obtém as informações”, frisou a Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo.

Sergio Moro
Foto
Sergio Moro Reuters/Adriano Machado

A Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji) repudiou na quarta-feira, em comunicado, os “ataques a Glenn Greenwald e equipa do The Intercept” por parte do ministro da Justiça do país, Sergio Moro, e por deputados federais.

“O ministro da Justiça, Sergio Moro, chamou o Intercept, no Twitter, de «site aliado a hackers criminosos” (…) Trata-se de uma manifestação preocupante de um ministro que já deu diversas declarações públicas de respeito ao papel da imprensa e à liberdade de expressão. Moro (...) erra ao insinuar que um veículo [de comunicação] é cúmplice de crime ao divulgar informações de interesse público”, declarou a Abraji em comunicado.

O The Intercept é um site de jornalismo de investigação liderado por Glenn Greenwald, jornalista a quem o ex-analista norte-americano Edward Snowden revelou os programas de espionagem da Agência de Segurança Nacional norte-americana (NSA, na sigla em inglês).

Desde o dia 9 de Junho, o portal jornalístico The Intercept tem publicado uma série de reportagens sobre alegadas mensagens secretas obtidas de uma fonte anónima, que terão sido trocadas por Moro com procuradores da Operação Lava-Jato, à época quando era o juiz responsável por analisar os processos da investigação em primeira instância.

Segundo o Intercept, as conversas lançam dúvidas sobre o desempenho de Moro nos processos da Lava-Jato, nomeadamente no julgamento que levou à prisão do ex-Presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

“O Intercept alega que recebeu de uma fonte anónima mensagens privadas de Moro e de procuradores da Lava-Jato. Jornalistas e veículos não são responsáveis pela forma como a fonte obtém as informações”, frisou a Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo.

Nesta quarta-feira, ao longo de uma audiência no Senado brasileiro, por diversas vezes, o actual ministro da Justiça acusou o The Intercept de ser “sensacionalista”, acrescentando que as mensagens divulgadas pelo portal jornalístico podem ter sido “total ou parcialmente editadas”.

As conversas foram “absolutamente normais” e a obtenção dessas mensagens por “hackers” é um “ataque às instituições”, acrescentou o actual ministro da Justiça. Moro lembrou ainda que o seu telemóvel foi alvo de um ataque, que o próprio diz ter presenciado: “Em 4 de Junho, o meu telefone sofreu um ataque. Estava em cima da minha mesa, recebi três ligações do meu próprio número. Depois alguém me mandou uma mensagem a perguntar se tinha entrado no Telegram [a aplicação de troca de mensagens que Moro usava para falar com os procuradores].”

Enquanto Moro estava no Senado, o director-executivo do Intercept, Glenn Greenwald, respondia a algumas das suas intervenções. “Não há um só país no mundo democrático em que os jornalistas ‘entreguem’ o seu material jornalístico à polícia ou aos tribunais para inspecção antes de publicar, como Moro exige”, afirmou o jornalista através do Twitter.

De acordo com a Abraji, na última quinta-feira, o deputado federal Carlos Jordy do Partido Social Liberal (PSL), ameaçou de “deportação” do jornalista Glenn Greenwald, acusando-o de cometer “crimes contra a segurança nacional”.

A associação diz ainda que Heitor Freire e Charlles Evangelista, ambos também deputados federais do PSL, “publicaram nas suas redes sociais montagens com fotos de Greenwald e afirmações falsas de que David Miranda [companheiro de Greenwald] é acusado de terrorismo e condenado por crimes contra a segurança do Reino Unido”.

“A Abraji manifesta solidariedade a Glenn Greenwald e repudia os ataques direccionados a ele, à sua família e a seus colegas do Intercept, especialmente os que partem de agentes públicos. Tentativas de intimidar e silenciar um veículo são acções típicas de contextos autoritários e não podem ser tolerados na democracia que rege o país”, concluiu a associação em comunicado.