Líder de aldeia russa expulsa centenas de ciganos após confrontos

As famílias expulsas não resistiram e queixam-se de falta de protecção dos governos regional e federal russos. É mais um exemplo do aumento da ciganofobia no continente europeu.

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A população roma perfaz entre dez a 12 milhões de pessoas no continente europeu © Petr Josek Snr / Reuters

Sergey Fadeev, chefe do conselho da aldeia russa de Chemodanovka, decidiu expulsar centenas de pessoas da comunidade cigana em retaliação pela morte de um russo e da entrada de outro em coma. 

“Foram trazidos autocarros e todos os que viviam aqui foram levados para Volgograd, onde a diáspora local aceitou acolhê-los. Foi feito à força. Agora estamos a estudar a legalidade de saírem da nossa aldeia”, explicou Fadeev ao jornal Novaya Gazeta.

Ainda que forçadas, as famílias não resistiram ao despejo. Pelo menos 90 casas ficaram vazias. O Governo regional de Penza, na Rússia Ocidental, não deu sinais de condenar a decisão de Fadeev, limitando-se a comentar que a expulsão aconteceu sem qualquer violência.

As tensões entre as duas comunidades na região de Penza têm estado elevadas. Nas últimas semanas, cidadãos ciganos e aldeões russos entraram em confronto nas ruas da aldeia, com episódios de fogo posto contra casas de roma a serem registados em vídeo.

No seguimento de uma das cenas de violência, um aldeão russo foi esfaqueado e morto e outro ficou em coma. Outros quatro deram entrada no hospital e as notícias locais avançaram que a disputa esteve relacionada com acusações de assédio sexual por cidadãos ciganos.

Todavia, a comunidade roma, diz o Guardian, recebe muito pouca protecção das autoridades regionais e federais. Cerca de 1500 juntaram-se para exigir a protecção das autoridades, bloqueando uma auto-estrada em protesto, mas pouco terá sido feito.

O governador da região de Penza, Ivan Belozertsev, aproveitou o momento para responsabilizar os Estados Unidos pelo escalar da tensão entre as duas comunidades: “Os Estados Unidos, o Ocidente, investiram uma quantidade enorme de dinheiro para preparar as pessoas daqui. Eles estão em cada região, incluindo na nossa, e não querem resolver os problemas, querem desestabilizar a situação”.

A única medida concreta foi a proibição da venda de álcool na zona para se evitar mais violência.

O discurso anti-Estados Unidos e Ocidente tem sido recorrentemente usado pelas autoridades russas para desvalorizar qualquer situação, incluindo a tensão étnica, e para instar a um espírito de união entre os russos, usando para o efeito o histórico nacionalismo russo.

“Sofremos uma grande tragédia”, disse Andrei Ogli, representante da comunidade roma, ao Guardian. “A diáspora roma envia as suas condolências aos familiares do homem que morreu e rezamos para que o ferido melhore. Não queremos conflitos como este na nossa cidade”.

Ciganofobia aumenta, e não apenas na Rússia

A comunidade roma, que perfaz entre dez e 12 milhões no continente europeu, tem visto a hostilidade contra si aumentar nos últimos anos, a par com o crescimento de forças de extrema-direita, que a têm usado como bode expiatório. A situação é considerada tão preocupante que na legislatura anterior o Parlamento Europeu pôs a questão no topo das suas prioridades.

O órgão legislativo europeu apelou numa resolução aos Estados-membros que aplicassem “medidas corajosas” para combater o aumento da ciganofobia, numa mensagem clara para os Estados da Europa de Leste.

Os ataques contra cidadãos roma na Europa de Leste têm sido cada vez mais comuns, com os acampamentos a serem os alvos preferenciais. Na Hungria, por exemplo, paramilitares do Jobbik, partido com representação parlamentar, têm o hábito de destruir os acampamentos, expulsando os ciganos e queimando os seus bens.

Na Bulgária, o ministro da Defesa e vice-primeiro-ministro Krasimir Karakachanov, esteve no centro de uma polémica por tecer comentários racistas contra os roma. “A tolerância da sociedade búlgara esgotou-se. […] A verdade é que precisamos de desenvolver um programa completo que seja uma solução para o problema cigano. A Bulgária tem de deixar de ter em conta Bruxelas e os defensores dos direitos humanos”, disse Karakachanov em declarações a uma rádio búlgara no início de Fevereiro.

Declarações que se seguiram a uma escaramuça entre um militar búlgaro não cigano e dois irmãos búlgaros ciganos na aldeia Vojvodinovo, nos arredores de Plovdiv. Os dois irmãos foram apresentados pelo Governo e pelos media como exemplos de toda uma comunidade dita violenta. Foi criado o pretexto para as autoridades demolirem 15 casas e grupos nacionalistas ameaçaram moradores ciganos na aldeia onde tudo aconteceu. O medo instalou-se entre a comunidade cigana e quase todos os seus membros fugiram das suas casas, procurando refúgio em Plovdiv.

E, mais recentemente, em França, uma notícia falsa que circulava nas redes sociais – a de que uma carrinha branca conduzida por ciganos raptava crianças para redes de tráfico de órgãos e sexual – levou a que vários roma fossem agredidos por uma multidão em Seine-Saint-Denis, no nordeste da capital francesa.

Vinte pessoas foram detidas, mas, segundo a agência de notícias AFP, outros grupos de vigilantes atacaram ciganos em Clichy-sous-Bois e Bobigny, montando inclusive vigílias nas proximidades de acampamentos. A comunidade roma teve de se juntar para se defender de possíveis novos ataques, sentindo-se desprotegida pelas autoridades francesas.

“Os rumores sobre o rapto de crianças numa carrinha são completamente infundados. Não há registo de nenhum rapto”, alertou na altura a polícia de Paris. “Não partilhem esta informação falsa, não incitem à violência”.

A ciganofobia também tem ganho força em Itália, onde o CasaPound, partido neofascista, usou uma narrativa anti-roma para ganhar terreno entre a população. Aproveitou o realojamento da comunidade roma no centro de Torre Maura, a leste da capital italiana, para mobilizar a população local: mais de seis dezenas de pessoas cercaram o edifício e atearam fogo a carros e a caixotes do lixo. Quem tentava levar alimentos para dentro do centro via a passagem ser-lhe recusada e a comida deitada ao chão.

O Governo italiano, com o vice-primeiro-ministro Matteo Salvini, da Liga (extrema-direita), também tem tido como alvo a população roma. No ano passado, Salvini anunciou pretender recensear separadamente a população cigana para saber quais dos seus membros têm ou não nacionalidade italiana. Os que não tiverem serão deportados.

A população roma em Itália é composta por cerca de 130 mil pessoas, com muitos a viverem em situações de grande precariedade em acampamentos na periferia das grandes cidades.