Hong Kong - Carrie Lam volta a pedir desculpas, mas não se demite

A chefe do Governo de Hong Kong pediu uma segunda oportunidade para reconstruir a confiança entre a sociedade e o seu Executivo.

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Carrie Lam nunca teve grande apoio entre a população de Hong Kong Reuters/TYRONE SIU

Num recuo nunca antes visto desde que Hong Kong passou para soberania chinesa, a chefe do Executivo da região administrativa especial, Carrie Lam, voltou a pedir as “mais sinceras e solenes” desculpas aos manifestantes pela violência policial e garantiu tê-los ouvido “alto e em bom som”. Porém, sobre a sua demissão, a mais recente exigência dos manifestantes, nem uma palavra.

“Tenho que carregar pessoalmente a maior parte da responsabilidade. Ofereço as minhas mais sinceras desculpas a todo o povo de Hong Kong”, disse Lam em conferência de imprensa esta terça-feira. Pouco depois, pediu uma segunda oportunidade para “reconstruir a confiança” entre o Executivo e a sociedade: “Espero que todas as pessoas de todos os quadrantes reconheçam o nosso trabalho e nos dêem uma oportunidade”.

Numa tentativa de humildade, a chefe do Governo afirmou que “deficiências no trabalho do Governo levaram a controvérsias e disputas substanciais na sociedade”.

A pressão internacional e o facto de os manifestantes que saíram à rua para rejeitar a lei da extradição não darem sinais de virem a desistir das suas reivindicações levou o Governo de Hong Kong a recuar. Tudo indica que Lam desistiu do projecto-lei que previa que suspeitos pudessem ser extraditados para serem julgados na China.

Uma das principais figuras a pressionar nesse sentido foi o antigo ministro dos Transportes, Anthony Cheung Bing-leung, em entrevista ao South China Morning Post: “A crise demonstra o completo fracasso do nosso sistema político”. “O Governo central não pode mais esperar que os problemas em Hong Kong sejam resolvidos ao focar-se em questões económicas e de bem-estar, evitando reformas políticas”, disse, garantindo que o problema extravasa em muito a questão se Lam se deve ou não demitir.

Entretanto, os próximos de Lam apostam na reconstrução de pontes entre a chefe do Governo e a população de Hong Kong. “Vai demorar muito tempo até Lam conseguir reconstruir as suas ligações com a sociedade. Pode ser feito, mas levará tempo”, disse uma fonte próxima de Lam ao South China Morning Post.

Lam já tinha pedido desculpas no domingo passado, mas não teve o resultado desejado – os manifestantes continuaram a sair à rua para exigir a sua demissão. A manifestação de domingo, com mais de dois milhões de pessoas, foi a maior em Hong Kong desde 1997.

Sobre a sua demissão, Lam não proferiu nem uma palavra. Segundo disse um alto funcionário do governo local à Reuters, ela não está autorizada por Pequim a demitir-se.

O regime chinês não deseja transmitir uma imagem de fragilidade nem espoletar uma crise política que pudesse ser aproveitada pelo movimento pró-democracia. A demissão de Lam “iria criar mais problemas do que soluções, a todos os níveis”, disse uma fonte do Governo ao Straits Times.

Entretanto, centenas de manifestantes continuam a ocupar algumas ruas de Hong Kong, principalmente aquelas onde os edifícios do Governo se encontram. E, à porta do Conselho Legislativo, onde Lam pediu novamente desculpa, os manifestantes ouviam com toda a atenção as suas palavras em ipads e telemóveis, relata o Straits Times. Por agora, ainda estão a digerir as suas palavras.

Questionada sobre o futuro do projecto-lei de extradição de criminosos (e opositores políticos, segundo os manifestantes), Lam limitou-se a dizer que não há calendário para voltar a discussão parlamentar e que o Governo terá primeiro de ultrapassar as divisões. Mas na prática a lei morreu.

“Suspendê-la significa realmente a sua retirada. Seria suícidio político avançar novamente com ela”, garantiu uma fonte do governo ao Straits Times.

A forma como o Governo mencionou os manifestantes transformou-se numa das questões fracturantes dos últimos dias. Sem querer entrar nesse tema quando confrontada pelos jornalistas, Lam limitou-se a dizer que não tinha nada a acrescentar ao que o chefe da polícia de Hong Kong, Stephen Lo-Wai, já tinha dito: os manifestantes afinal não eram todos “vândalos” e apenas aqueles que atiraram pedras ou usaram barras de metal nos confrontos com a polícia se deviam preocupar com acusações judiciais. 

Uma das exigências dos manifestantes é a garantia de que não haverá uma sucessão de processos judiciais contra quem ocupou as ruas.

Lam nunca granjeou grande apoio junto da população de Hong Kong, que a encara como testa-de-ferro de Pequim. Esteve envolvida na repressão aos protestos de 2014 e chegou ao poder, em 2017, depois de o regime chinês ter recusado a eleição do líder do Governo por sufrágio universal. As forças políticas pró-Pequim detêm a maioria no parlamento local e nomeiam, sob indicação do regime chinês, o líder do Executivo, obrigatoriamente não-partidário e normalmente proveniente do funcionalismo público.

A forma como chegou ao cargo fragilizou-a logo à partida, principalmente quando o movimento pró-democracia em Hong Kong dava sinais de força renovada. O movimento considera que Pequim não está a respeitar as garantias democráticas acordadas com o Reino Unido aquando da transferência de soberania, tentando controlar todos os aspectos da vida na região – política, media, tribunais, sindicatos, polícia.