Boris Johnson repete vitória folgada e continua favorito na corrida ao lugar de May

Ex-ministro dos Negócios Estrangeiros conseguiu 126 votos de 313 deputados conservadores. Raab foi eliminado, em dia de sondagem que mostra que os militantes preferem o “Brexit” à sobrevivência do partido e à unidade territorial do Reino Unido.

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Lema "Back Boris" tem tido sucesso entre os deputados conservadores Reuters/TOBY MELVILLE

Com o tiro de partida saíram dez, mas três caíram à primeira curva, um desistiu no intervalo e esta terça-feira sucumbiu outro. A segunda etapa da corrida ao cargo de líder do Partido Conservador britânico, próximo primeiro-ministro do Reino Unido e sucessor de Theresa May voltou a confirmar o superfavoritismo de Boris Johnson, que venceu destacado, e viu o número de concorrentes reduzir para cinco. Dominic Raab falhou os mínimos para passar à próxima ronda, numa votação em que o ex-ministro dos Negócios Estrangeiros agregou 126 do total de 313 deputados habilitados a votar. Quarta-feira há nova etapa, a eliminar.

O segundo classificado da contenda foi, uma vez mais, Jeremy Hunt. Mas o sucessor de Johnson na pasta da Diplomacia, e autoproclamado candidato “moderado”, juntou somente mais três votos aos 43 que trazia da primeira volta. Mais, ficou a uns inalcançáveis 80 votos do concorrente mais votado. Já os ministros Michael Gove, Rory Stewart e Sajid Javid ficaram-se pelos 41, 37 e 33 apoios, respectivamente, com o último a igualar os 10% de deputados, o mínimo exigido pelas regras da corrida para continuar a competir.

Com apenas 30 votos, o ex-ministro do “Brexit”, Dominic Raab, sai de cena. Quem sabe se não pagou cara a recusa em excluir um cenário de suspensão dos trabalhos do Parlamento britânico para fazer o Reino Unido sair da União Europeia a 31 de Outubro – a (terceira) data oficial do “Brexit”.

Em sentido contrário, o outsider Stewart, opositor assumido dessa solução, praticamente dobrou os 19 votos da primeira volta, afirmando-se como o maior beneficiário das eliminações e desistências anteriores.

Depois de ter obtido 114 votos na primeira volta, realizada na quinta-feira da semana passada, Johnson conseguiu acrescentar 12 deputados à sua lista, muito por culpa dos apoios públicos que recebeu nos últimos dias, de Andrea Leadsom, Esther McVey e Matt Hancock – duas derrotadas e um desistente da eleição interna tory

Números que confirmam o que as casas de apostas há muito anunciam e que só não será uma inevitabilidade se a pessoa em causa não quiser ou se cometer um erro grosseiro e imperdoável nas próximas semanas: o próximo inquilino do número 10 de Downing Street será Boris Johnson.

A terceira ronda da contenda eleitoral está agendada para quarta-feira – já depois da primeira participação de Johnson num debate televisivo – e a fase do processo de escolha, pelos deputados conservadores, do legatário da saga do “Brexit”, concluir-se-á no dia seguinte. 

Os dois “sobreviventes” da maratona irão, depois, participar numa eleição a nível nacional, realizada através de voto por correspondência, e na qual serão chamados a votar os cerca de 160 mil militantes do Partido Conservador.

A entidade organizadora da eleição – o Comité 1922, que junta todos os representantes tories na Câmara dos Comuns de Westminster que não têm cargos no Governo – prevê anunciar o próximo líder do executivo britânico na semana que se inicia a 22 de Julho.

“Brexit” ou destruição tory? “Brexit”!

A votação desta terça-feira surge no mesmo dia em que a YouGov publicou um estudo que coloca a conclusão do processo de saída do Reino Unido da União Europeia no topo de todas as prioridades da maioria dos militantes do Partido Conservador. Mesmo que isso envolva destruir o partido, comprometer a integridade territorial do país ou prejudicar a economia britânica.

Segundo os dados recolhidos na sondagem, apenas 36% dos 892 militantes tories que nela participaram defende que a sobrevivência do partido é mais importante que o cumprimento do “Brexit” – 54% prefere o divórcio com a UE. 

Na mesma linha, a maioria privilegia o “Brexit” em detrimento da união do reino. 63% dos militantes estão dispostos a dar luz verde à separação da Escócia do Reino Unido e 59% ao afastamento da Irlanda do Norte, se isso significar que a desfiliação europeia é cumprida. 

Apenas 29% dos participantes no estudo da YouGov opta pela estabilidade económica do país em vez do “Brexit” – que gera o apoio de 61%.

O único cenário que os membros do Partido Conservador admitem como prioritário sobre o “Brexit” é travar a entrega da chave do número 10 de Downing Street a Jeremy Corbyn. Ter de lidar com o líder do Partido Trabalhista como primeiro-ministro do Governo de Sua Majestade é, para os conservadores, o mais negro de todos os possíveis desfechos do processo iniciado em Junho de 2016, com a divulgação do resultado do referendo britânico à Europa.

De acordo com a sondagem, 51% dos militantes tories estaria disponível para abdicar da saída do Reino Unido da UE se isso significasse que Corbyn não chega ao poder. Evitar a realização de eleições antecipadas antes do dia 31 de Outubro é meio caminho andado para manter bem afastada essa possibilidade. E todos os candidatos à sucessão de May concordam.