Presidente egipcio Mohammed Morsi, deposto por golpe militar, morre em tribunal

Morsi tinha sido condenado à morte em 2015, mas a pena tinha sido convertida em prisão perpétua em 2016, tal como a de outros líderes da Irmandade Muçulmana. Foi deposto pelo actual chefe de Estado, Abdel Fattah El Sissi.

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Morsi, numa foto de 2015 Amr Abdallah Dalsh/REUTERS

Mohammed Morsi, o Presidente do Egipto deposto em 2013 por um golpe militar liderado pelo general Abdel Fattah El Sissi, hoje chefe de Estado, morreu esta segunda-feira em tribunal.

Morsi, de 67 anos, estava a ser interrogado sobre acusações de espionagem e terá tido um ataque de coração fulminante, relatam jornalistas ocidentais no Twitter, citando o que estão a dizer fontes oficiais na televisão egípcia.

Desde o golpe de Julho de 2013, que pôs fim à sua atribulada governação, que havia rumores de que não estava a receber os cuidados devidos na prisão, recorda o correspondente do New York Times Patrick Kingsley. Morsi tinha uma longa história de problemas de saúde, que incluíam diabetes, doenças de fígado e de rins.

Foi o primeiro Presidente democraticamente eleito do Egipto, após os grandes protestos populares de 2011 na Praça Tahrir contra o regime do Presidente Hosni Mubarak, que foram dos mais fortes das Primaveras Árabes. Morsi foi eleito pela Irmandade Muçulmana, em Junho de 2012, numas eleições que acabaram por não ser tão concorridas como se esperava nem ter uma representação forte de forças democráticas. O seu primeiro ano de mandato, no entanto, foi muito atribulado.

Este engenheiro com formação nos Estados Unidos emitiu uma declaração constitucional que lhe garantia poderes ilimitados e o poder de legislar sem ter supervisão judicial. O seu objectivo era evitar a ameaça de dissolução do Parlamento por juízes do tempo de Mubarak que continuavam nos cargos. A nova Constituição, finalizada em tempo recorde pelo Parlamento dominado por partidos islamistas, era considerada um assalto ao poder pela Irmandade Muçulmana, e uma transformação do Egipto num Estado religioso. Chamaram “faraó” a Morsi, tal como tinham chamado a Mubarak e os protestos voltaram às ruas, com enorme violência e derramamento de sangue.

As acusações de espionagem não são nada de novo: desde que foi preso, foi acusado de passar informações a grupos como o Hamas, o Hezbollah e os Guardas da Revolução Iranianos, e até foi acusado por se ter evadido da prisão Wadi el-Natroun, durante a revolução de 2011, quando era prisioneiro do regime de Hosni Mubarak - o que é considerado uuma prova da proximidade ideológica do regime de Sissi com o do velho Presidente, que ainda é vivo e foi libertado em 2017. 

Morsi foi condenado à morte em 2015, mas a pena foi transformada em prisão perpétua um ano depois.

O Presidente turco, Recep Tayyip Erdogan, foi o primeiro a prestar tributo a Morsi, chamando-lhe “um mártir”. O partido de Erdogan é um dos muitos inspirados pela Irmandade Muçulmana, um movimento político sunita fundado há 90 anos no Egipto com vocação missionária. A organização foi ilegalizada e os seus membros presos e muitos deles condenados à morte, quando Sissi tomou o poder, num golpe militar a 3 de Julho de 2013. Sissi deixou a farda e tem-se apresentado a eleições presidenciais praticamente sem rivais desde o golpe - mesmo que seja preciso prender os rivais.