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Boating Europe: ele, ela e um barco-salva vidas

Qual é a melhor forma de fugir do país (e, já agora, da vida quotidiana)? Comprar um barco salva-vidas de uma plataforma petrolífera, mudar o seu interior e zarpar. As alterações climáticas já não os assustam (tanto).

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Boating Europe

Circum-navegação é uma viagem marítima em torno de um lugar, que pode ser uma ilha, um continente ou toda a Terra. O que a Wikipédia e outros compêndios não nos dizem é que é possível circum-navegar a Europa — ou uma boa parte dela — por rio. Quinhentos anos depois de Fernão de Magalhães (circum-navegou o globo de 1519 a 1522), esta nova aventura está meio caminho andada. Uma portuguesa, um inglês e um barco salva-vidas.

Hamish Campbell, 55 anos, andava há 20 anos a escrever reportagens sobre alterações climáticas e outras questões ambientais. “É um desastre e não estamos a fazer nada para mudar”, diz em vídeoconferência com a Fugas depois de atracar o seu Fassmer CLR-C (7.2m x 2.89m; 3200Kg) a par de “uma barcaça enferrujada” em Galati, na Roménia. Conheceu a sua companheira de viagem num bar há três anos e meio. “A Ana estava à procura de um aventureiro e eu convidei-a a conhecer o meu barco”, sorri. Ana Reis, 44 anos, é arquitecta formada no Porto. Trabalha há uma dúzia de anos em gabinetes londrinos (com um interregno de dois anos numa ONG em Cabo Verde).

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O barco onde viajam foi comprado há sete anos “mais ou menos por brincadeira, mais ou menos em desespero de causa”, conta Hamish, que queria morar num barco e já não queria viver em Londres. “Pensei ‘qual é a melhor maneira de fugir de Londres?’ Podia ter comprado um barco estreito que me permitisse navegar nos canais ingleses, mas não poderia fugir do país. Em vez disso, procurei e encontrei um salva-vidas de uma plataforma petrolífera na Escócia. E comecei a alterá-lo para poder viver nele. Era um barco concebido para 61 pessoas. Vinha com 61 assentos e 61 coletes salva-vidas.”

Agora, a embarcação tem um quarto, uma casa de banho, uma cozinha, uma salamandra no meio, painéis solares e um moinho de vento para a electricidade no Inverno — e muitas, muitas ferramentas. E na cobertura um quintal, perfeito para dois vegetarianos que atracam mais ou menos a cada dois dias para comprar vegetais frescos, leite, pão e uns croissants. O salva-vidas, que parece uma máquina saída da série de ficção científica Thunderbirds, estava parado. Nunca chegou a ser usado para a sua função original. “Quando a plataforma explodisse”, ficciona o seu comandante, “o salva-vidas, com 61 pessoas e reservas de oxigénio, atravessaria o mar em chamas durante vinte minutos. Podia ficar submerso e voltar à superfície. Está desenhado para sobreviver a tudo. Pode sobreviver ao fim do mundo durante um par de horas. É um barco inafundável.

Antes de comprar o barco, Hamish viu numa carta que a circum-navegação planeada era possível. “Queremos prová-lo”, completa Ana. Partiram de Londres (da marina de Limehouse) até à pequena cidade costeira de Gramsgate. Seguiu-se a travessia para Calais, através do Canal da Mancha (que num ferry demora normalmente 30 minutos). Demorou oito horas. “É um barco lento, seguro e fiável”, justifica Hamish, que enjoou — Ana aguentou o leme.

A primeira parte do trajecto, de Londres ao mar Negro, está concluída. Calais, Paris, Montceau-les-Mines e Estrasburgo (França), Frankfurt (Alemanha), Linz e Viena (Áustria), Bratislava (Eslováquia), Budapeste (Hungria), Novi Sad e Belgrado (Sérvia), Ruse (Bulgária) e Constança (Roménia). O casal demorou três anos e meio a chegar a meio caminho — 501 eclusas (a mais profunda de 30 metros), seis túneis (um deles de seis quilómetros, percorridos numa hora), oito rios, 18 canais e nove países depois (assinalaram o ponto mais alto a 406 metros de altitude). Foram 15 mil quilómetros em 15 meses distribuídos por três anos. Demoraram muito porque hibernam. Quando o frio aperta, eles voltam a Londres (para amealhar, que é como quem diz voltar à “vida real"), e o barco fica numa doca seca à espera da tripulação (à ida aconteceu na França, na Áustria e na Roménia). “Voltamos, trabalhamos e ganhamos algum dinheiro. Tem tudo a ver com encontrar um equilíbrio.” No regresso há sempre pequenos problemas a resolver”, dizem, sentados à frente de uma webcam no último país da União Europeia, já muito perto do mar Negro (descem o Danúbio até Sulina).

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Demorará “pelo menos” mais dois anos a voltar ao ponto inicial. Seguem junto à costa até Odesa e daí Europa dentro. Kiev (Ucrânia), Brest (Bielorrússia), Varsóvia (Polónia), Berlim e Hanôver (Alemanha), Holanda, Bélgica e França. “É incrível”, resume Ana. “Toda a gente acena e sorri pelo caminho.” Quando não têm tarefas a cumprir, tentam ancorar. E viver o rio. “Procuramos um sítio longe da corrente ou um afluente, lançamos a âncora e sentamo-nos rodeados pela linda natureza, florestas e árvores, muitos pássaros. Nada de Internet [a Fugas tentara a entrevista uns dias antes, mas a natureza ganhou]. Lindo. Quando há pouca corrente e um bom dia de sol dá para dar uns mergulhos. A água é clara muitas vezes. Mas a Ana não nada porque os peixes são muito grandes e ela tem medo. Estamos no meio de nada”, suspira Hamish.

À pergunta tradicional “porque é que estás a fazer isto?” ele costuma responder “porque é que vais todos os dias para o escritório?”. “Quando acordamos de manhã não sabemos onde vamos estar no fim do dia”, explica Ana. “Go with the flow.” No sentido mais literal da expressão. Ela diz: “Encontra o teu equilíbrio”. Ele: “Vive a tua vida!”

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Na Sérvia, durante um brinde de rakija, Hamish estabeleceu contacto através dos binóculos com uma pessoa. Acenaram-se e acabaram por ficar um mês. “Encontramos muitas pessoas simpáticas pelo caminho”, diz Hamish, que coordena projectos online e ensina a contar histórias com o smartphone. Vai registando tudo pelo caminho para um dia montar um documentário. “Podemos procurar informação sobre os rios e os canais na Internet, mas a única informação disponível é mesmo o passa-palavra entre locais. A informação não existe.” O dia-a-dia também depende da “generosidade dos estranhos” (como o amigo do amigo que é engenheiro e que ainda há instantes veio dizer que o motor está bom). “No mundo dos barcos temos que ser amigáveis com toda a gente. Temos que ajudar toda a gente porque precisamos de ajuda muitas vezes. Esta é uma comunidade aberta muito generosa. É um pouco como o mundo devia ser”, aponta Hamish, que costumava pedir boleia pelo mundo fora.

Na primeira metade da epopeia encontraram “alguns aventureiros alemães” e “casais de ingleses reformados” ("todos votaram no Brexit, todos vivem no estrangeiro e todos bebem vinho") que também viajam de barco pelos rios. “Fui o segundo a ter um barco deste género em Londres”, recorda Hamish. “Há cerca de 20 agora.” Sinal de mudança, talvez. Dentro de alguns alguns anos, prevê o comandante do barco salva-vidas, serão muitos mais. “Mudem-se para uma colina ou para uma montanha ou vivam num barco. Ou uma ou a outra.” Não haverá volta a dar.