Gui Garrido, fundador do festival A Porta, em Leiria
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Gui Garrido, fundador do festival A Porta, em Leiria Vera Marmelo

A Porta está aberta para todos, em Leiria — e Gui segura-a

Como é que se constrói um festival (quase) gratuito, multidisciplinar, inclusivo, para todas as idades e que entra pelas casas adentro? Gui Garrido abre pela quinta vez A Porta, que está de regresso a Leiria de 14 a 23 de Junho.

Gui Garrido diz-se um “facilitador”. Alguém que, “mais do que estar constantemente a construir”, tem a “curiosidade de olhar em volta, ver o potencial” e abrir a porta de casa para que as pessoas “se encontrem e criem novas propostas”. Há cinco anos, para fazer exactamente isto, decidiu escancarar A Porta — assim mesmo, com maiúscula, que é nome de festival.

Não o fez sozinho, até porque não tem as chaves para entrar nas lojas, teatros ou casas que agora se abrem. O festival multidisciplinar, maioritariamente gratuito e criado “em rede”, como ele gosta, quer ocupar o máximo do “território da cidade, criar espaços de diálogo e um encontro de comunidades”, de várias idades.

A Porta leva a Leiria concertos, artistas e arte visuais, workshops, uma feira, conversas, passeios guiados, instalações nos espaços públicos, uma “vila” dedicada à editora de música leiriense Omnichord (Surma, First Breath After Coma, Whales) e jantares temáticos em casas de locais, entre 14 e 23 de Junho. 

PÚBLICO - O festival assume-se como multigeracional e transversal aos vários tipos de música e arte
O festival assume-se como multigeracional e transversal aos vários tipos de música e arte Vera Marmelo
PÚBLICO - O festival assume-se como multigeracional e transversal aos vários tipos de música e arte
O festival assume-se como multigeracional e transversal aos vários tipos de música e arte Vera Marmelo
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Vera Marmelo

Em 2014, quando tudo começou, Gui, coreógrafo e bailarino de formação de 35 anos, ex-colaborador do Tremor, nos Açores, “era um estranho que estava a voltar à cidade”. Não de forma definitiva — ainda vive em Lisboa depois de regressar da Europa Central, onde trabalhou — mas começava então a ensaiar uma reaproximação à cidade onde cresceu, depois de ser pai.

Por lá, encontrou pessoas activas, um público crítico, “uma massa associativa inacreditável, que promove um tecido cultural que se vai regenerando”. Mas também viu alguns dos locais das suas memórias, que queria que pertencessem também às do filho, “entregues a algum abandono”. Quis meter a mão nisso.

A primeira edição do festival A Porta aconteceu como sempre acontece com todos os pequenos festivais que, quando chega o Verão, brotam por todo o país (311, em 2018, aponta a Aporfest): doses “bastante loucas” de “entusiasmo” e “envolvência”. “Foi feito em tempo recorde com meia dúzia e meia de gatos-pingados, agentes culturais da cidade e outros amigos também, com umas condições muito precárias, sem fazer a mínima ideia do que isto poderia ser.” Podiam ter-se ficado por aí. “Mas na altura deu para ver que fez sentido, que tivemos adesão.” Não revela o orçamento, mas logo no primeiro ano conseguiu algum apoio da câmara — nomeadamente na cedência de materiais técnicos e ajudas de custo de impressões — e patrocínios de empresas de amigos ou conhecidos.

Cinco anos depois, “houve um crescimento exponencial, desde a adesão, alargamento de território, dias e quantidade de propostas artísticas e a transversalidade das mesmas”. Em 2018, receberam um total de 12 mil pessoas, estimam. “É muito bonito ver um festival com muitos pais e crianças, ter um engarrafamento de carrinhos de bebés”, ri-se. “A única forma de continuarmos aqui depois de tantos anos e das feridas sararem um bocadinho mais rápido é realmente conseguir aquilo a que nos propomos.” 

No programa, entram propostas como uma aula de skate para jovens cegos, uma oficina colectiva de construção de elementos decorativos suspensos, no Centro Cívico, uma performance sonora de 24 horas, ioga para crianças ou um piquenique para ouvir histórias. Quase todas as actividades são de entrada livre, exceptuando um workshop de escrita com Gonçalo M. Tavares, os concertos de Manel Cruz, JP Simões e Ricardo Martins, no Teatro José Lúcio da Silva, e os seis concertos na Vila Omnichord, a 20 de Junho. Três dos quatro jantares temáticos em casas de famílias leirienses, com direito a “sobremesa musical”, esgotaram em quatro minutos. 

Não escondem que levaram “um bocadinho a peito os cinco anos de celebração”, brinca Gui, fundador e director artístico d'A Porta. Estão até a fazer crescer, em plena cidade, uma horta. “Uma metáfora para aquilo que acreditamos que o festival é: há que sonhar, há que trabalhar para conseguir concretizar e, depois, há que manter — o que, muitas vezes, é o mais difícil.”