Mulheres em greve na Suíça querem mais “tempo, salário e respeito”

Protesto contra desigualdade arranca num país onde há uma história de luta pelos direitos das mulheres, mas em que estes tardam em chegar.

Fotogaleria
GEORGIOS KEFALAS/EPA
Fotogaleria
Ainda era de noite quando saíram as primeiras mulheres à rua em Lausanne DENIS BALIBOUSE/Reuters
Catedral de Lausanne
Fotogaleria
DENIS BALIBOUSE/Reuters
Fotogaleria
DENIS BALIBOUSE/Reuters
Fotogaleria
JEAN-CHRISTOPHE BOTT/Epa
Fotogaleria
ALESSANDRO DELLA VALLE/Epa
Fotogaleria
JEAN-CHRISTOPHE BOTT/Epa
Fotogaleria
ALESSANDRO DELLA VALLE/Epa

Ainda era noite quando algumas centenas de pessoas saíram esta sexta-feira à rua, em várias cidades da Suíça, dando início a uma greve de mulheres por direitos iguais. Queixam-se de trabalho precário, de falta de licença de paternidade. Em resumo: querem mais “dinheiro, tempo e respeito” para as mulheres.

O protesto acontece 28 anos depois de uma manifestação semelhante, em 1991, quando meio milhão de mulheres saiu à rua a pedir mais acções para a igualdade de direitos entre homens e mulheres. Na altura, não havia mulheres no Governo, nem licença de maternidade inscrita na lei. E o fim da necessidade da permissão do marido para abrir uma conta bancária acontecera apenas cinco anos antes, em 1986.

Apesar de o país ter uma história de luta pelos direitos das mulheres, ainda é um dos países ocidentais com um lugar mais baixo em termos de igualdade de salários (num índice do Fórum Económico Global está em 20.º lugar entre os países com menos desigualdade, bastante abaixo da França ou Alemanha, em 12.º e 14.º lugar respectivamente). 

A emissora britânica BBC lembra que, após o fim da I Guerra Mundial, em 1918, as suíças juntaram-se a milhões de mulheres que reivindicaram o direito de voto na Europa —, mas que só o conseguiram em 1971. Na Alemanha, por exemplo, as mulheres puderam votar a partir de 1919, em Portugal, em 1968 (uma mulher portuguesa, Carolina Beatriz Ângelo, votou em 1911, aproveitando um buraco na lei, que foi rapidamente emendado).

Na Suíça, país dos referendos, a licença de maternidade foi recusada quatro vezes por voto popular antes de ser aprovada — as mães têm direito a 14 semanas de licença. Mas não existe licença de paternidade: os pais não têm este direito, apenas a um “dia de família” ocasional. Nos países da OCDE, a média de dias de licença de paternidade pagas pelas empresas é de uma semana; na Suíça é de um dia (algumas empresas incluem voluntariamente dias de licença para os seus trabalhadores).

As mulheres ganham em média menos 12% do que os homens, aponta o texto da organização do protesto. “Na idade de reforma, têm em média menos 37%” do que os homens, e “tratam ainda de dois terços do trabalho não pago como o doméstico, cuidar das crianças, e reduzem assim o tempo de trabalho pago”, explica o manifesto, citado pela revista alemã Der Spiegel: por causa disto, têm mais vezes trabalho a tempo parcial ou flexível, mais precário e mal pago, o que se reflecte nos valores das reformas.

Trabalhos flexíveis
O país tem ainda das creches mais caras da Europa, o que empurra muitas mulheres para pausas no trabalho e, de novo, trabalho flexível. A organização da greve junta outro a estes motivos para o protesto: a violência sexual sobre as mulheres. 

Em resumo, como diz o Financial Times, um dos países mais ricos do mundo está a dar a metade da sua população um mau negócio. “Houve um movimento muito forte na Suíça no início do século passado”, disse ao jornal britânico Salome Schaerer, do grupo que organizou o protesto. “Alguns dos slogans que tinham nas bandeiras podiam ser usados ainda hoje: os problemas são os mesmos.”

A greve como forma de protesto a favor da igualdade foi provocadora em 1991 e continua a enfrentar algumas dificuldades hoje: por exemplo, as professoras não podem, por lei, fazer greve, porque são consideradas instituições de Estado e a greve viola as regras da neutralidade, conta a emissora alemã Deutsche Welle.

Apesar de ser uma profissão dominada por mulheres, a greve foi assim invisível nas escolas. Mesmo um cartaz, dizendo “112 mulheres trabalham aqui”, foi retirado numa escola de Wiedikon, nos arredores de Zurique, e as responsáveis pelas escolas repreendidas.