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O mapa de uma barbárie segundo Peter Carey

Willie, um indígena de pele clara, serve a Peter Carey para se confrontar com a brutalidade da colonização branca na Austrália. Ele é um dos protagonistas de Longe de Casa, 14º romance do mais aclamado escritor australiano vivo, duas vezes vencedor do Booker Prize. É um livro sobre a colonização, a hegemonia do pensamento branco, o racismo, a apropriação cultural ou culpa histórica. Mas também sobre a ignorância, o amor e a violência. Foi escrito por um branco que não quis morrer sem tratar um dos assuntos fulcrais da história do seu país.

Quando estava a escrever Oscar e Lucinda, o romance que lhe deu o seu primeiro Man Booker Prize, Peter Carey recebeu do líder de uma comunidade aborígene australiana o pedido para não escrever sobre os povos indígenas. O argumento era o de que, apesar de todas as boas intenções, havia tantos equívocos históricos, antropológicos, científicos a circular no discurso público sobre a colonização e sobre o que era ser indígena, que levar o assunto na ficção não ajudaria nada. Isso aconteceu no início dos anos 80, o romance saiu em 1988 acabando por aludir apenas ao tema sem que ele se impusesse – ou sequer se notasse – enquanto preocupação do escritor. Quase trinta anos depois, muita coisa mudou, mas o que se alterou foi a percepção de Carey acerca da sua escrita e do seu tempo pessoal. “Uma pessoa chega a uma certa idade e pensa que pode morrer sem ter de facto escrito sobre a barbárie iniciada pelos europeus e pelo mundo cristão com o intuito de destruir a cultura indígena. Para mim, enquanto escritor australiano, seria muito triste se tal acontecesse, ignorar um dos aspectos mais marcantes da história da Austrália”, afirma ao Ípsilon. Escrever um romance sobre esse tema era uma questão moral? “Sim, claro que era uma obrigação moral”, responde, sem um indício de hesitação.