O futuro é incerto para a Biblioteca-Museu República e Resistência

Equipamento municipal vai entrar em obras que a câmara de Lisboa estima que durem um ano. O local é cobiçado pela junta das Avenidas Novas, que quer ali abrir uma nova biblioteca de bairro. O director do espaço rejeita que este esteja “morto”.

Biblioteca - Museu da República e da Resistência
Foto
PEDRO CUNHA - PÚBLICO

Vai fechar nos próximos dias a Biblioteca-Museu República e Resistência (BMRR), no bairro do Rego. A câmara de Lisboa quer fazer obras no espaço que vão durar pelo menos um ano e garante a reabertura do equipamento, mas dentro da instituição e nos partidos da oposição instalou-se a certeza de que a biblioteca já não voltará para ali. Até porque a presidente da Junta de Freguesia das Avenidas Novas dá como certa a abertura de uma biblioteca de bairro naquele local.

A data exacta de fecho ainda não é conhecida. O arranque das obras esteve inicialmente marcado para 15 de Junho, mas o assunto tem gerado grande discussão na assembleia municipal e, por isso, os deputados da comissão de Cultura agendaram uma visita ao espaço para a próxima segunda-feira.

Instalada num rés-do-chão comercial da Rua Alberto Sousa há 18 anos, a BMRR tem logo à entrada uma grande pintura mural de Maria Keil e um busto da República, lembrando o fim a que se destina este equipamento. Criada em 1993 por João Soares, a biblioteca-museu guarda a colecção Dulce Ferrão (mulher do jornalista Carlos Ferrão), com 26 mil volumes, e ainda outras obras e documentos relacionados com a República, a maçonaria e a resistência à ditadura.

A necessidade de grandes obras não se vislumbra à vista desarmada, mas a vereadora da Cultura assegura que a biblioteca tem de fechar para os trabalhos se fazerem. “Houve umas vistorias em 2016 e 2017 e dizem-nos que é preciso encerrar a biblioteca, embora não sejam umas obras de envergadura extraordinária. É mesmo preciso encerrar e essa decisão é técnica, não é uma decisão política”, garantiu Catarina Vaz Pinto durante uma sessão da assembleia municipal, na semana passada.

A vereadora disse que se trata de “uma intervenção absolutamente necessária e fundamental” no sistema de ar condicionado e na instalação eléctrica, o que obriga a fechar a biblioteca e a retirar de lá todo o seu espólio pelo período de 12 meses. “A biblioteca vai reabrir, nós não estamos a encerrar nada. Estamos a encerrar um equipamento para obras, como se faz em muitos equipamentos municipais”, disse Catarina Vaz Pinto.

A responsável pela Cultura revelou ainda, na mesma ocasião, que “este tempo de pausa que vai ser usado para encerrar e fazer a obra é também o tempo para reavaliar a melhor opção quanto à possível utilização daquele acervo e da própria biblioteca”.

Embora Vaz Pinto e Fernando Medina desdramatizem esta “reavaliação” e digam que o que se pretende é ver que parte do espólio pode ser colocada no Museu do Aljube – Resistência e Liberdade, esse ponto está a acicatar os ânimos na oposição e mesmo dentro da biblioteca. “As obras são um pretexto para acabar com o projecto República e Resistência”, acusa Fernando Moreira, funcionário de longa data daquela casa. “Armazenar na retaguarda significa destruir, significa nunca mais encontrar.”

"Este equipamento está vivo"

O assunto irrompeu na assembleia municipal há duas semanas, depois do jornal O Corvo o ter noticiado. Simonetta Luz Afonso, deputada do PS, e Ana Gaspar, presidente da junta das Avenidas Novas, disseram então que a BMRR é hoje um equipamento “inoperante” e “morto”, enquanto Catarina Vaz Pinto afirmou que “é das bibliotecas com menor utilização da rede, com um número de visitantes muitíssimo abaixo da média, um número de empréstimos muito abaixo.”

Jorge Mangorrinha, director da biblioteca-museu, não concorda. “Este equipamento está vivo, mas precisa de obras, tal como pedi desde o primeiro dia. Se alguém eventualmente tiver uma ideia contrária é porque não o visitou nos últimos tempos ou o pretende extinguir”, diz.

Também Fernando Moreira discorda, embora admita que a BMRR não tem a pujança de outros tempos. “Se compararmos com o que o equipamento foi no início, há muitos anos, claro que é uma imagem pálida: não edita livros, não tem um serviço educativo”, afirma, apontando o dedo à tutela: “Tem havido um desinvestimento continuado no projecto.”

O funcionário diz que “há muita coisa encaixotada e por catalogar” e que a câmara devia “assumir de uma vez por todas que estamos perante um património valioso”. Catarina Vaz Pinto afirma que o tempo em que a biblioteca estiver fechada vai ser aproveitado para “concluir o inventário”. “Há uma parte do espólio que não está tratada. Há uma parte, sobretudo de documentos, que estão em caixotes, e não se sabe o que está aí.”

Uma Casa da República

Ana Gaspar, autarca das Avenidas Novas, assumiu na assembleia a sua vontade em ter ali uma biblioteca generalista, de bairro. “Já não estamos no tempo em que os equipamentos se situam numa qualquer parte do território mas depois nada têm a ver com o território”, disse, referindo-se ao facto de o Rego ser um bairro de realojamento e haver ali problemas de analfabetismo e iliteracia, onde uma biblioteca tão especializada pouco diz a quem lá mora. “Afirmo aqui, é um compromisso de honra, que esta biblioteca do Rego – chamemos-lhe já assim – potenciará de facto o que há a potenciar”, afirmou.

A câmara não fala para já desta hipótese. “Aqui não é uma questão de uma ou outra. Podem existir as duas bibliotecas”, opina Fernando Moreira. É uma posição semelhante à defendida por deputados de vários partidos, da esquerda à direita. “Concordamos com a necessidade de existir uma biblioteca de bairro, generalista, mas estamos certos que existirão outros espaços, na freguesia das Avenidas Novas e no bairro do Rego, em particular, onde poderá ser instalada”, afirmou Natacha Amaro, do PCP.

Os vereadores do PSD vão levar à câmara uma proposta para a criação da Casa da República, uma estrutura que pretende ser mais abrangente do que a BMRR e até com vários núcleos. Sem conhecer em pormenor a proposta social-democrata, Jorge Mangorrinha diz que a ideia não lhe desagrada. “Lisboa tem a particularidade de ter sido republicana antes do país, por isso tem a obrigação de defender esse legado”, afirma o director da BMRR. “O equipamento exige investimento, para termos uma Casa da República que tem raízes no passado, mas essencialmente deve projectar o presente e o futuro, inclusivamente face ao avanço dos extremismos à escala mundial.”